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11 de maio de 2015

Os cadernos

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Sempre diremos tudo um ao outro, inclusive o que não for bom. Mesmo o que for desagradável deve ser dito. Porque calar é perigoso. Não nos separe o silêncio, nunca. Assim foi o pacto que fizeram Carlos e Isabel, tão logo se descobriram apaixonados e dispostos a viver juntos vida afora. Tem a minha palavra, disse Carlos. Tem a minha palavra, respondeu Isabel. Casaram-se poucos dias depois.

Ao cabo de dez anos, com a paixão um tanto esgarçada e frouxa, ainda mantinham o pacto:

Carlos: Sabe, querida, o que seria bom? Que você perdesse uns quinze quilos. Seria ótimo para sua saúde e sua autoestima. Depilar as pernas com mais frequência também é uma ótima ideia. O que você acha?

Isabel: Eu acho que não vou fazer nada disso, querido. Se fosse para mudar alguma coisa, o melhor seria que você mudasse. Sua voz é irritante. Quando você ri, tenho vontade de lhe enfiar uma faca na boca. Falta-lhe inteligência e essa sua barriga peluda me causa náuseas. Não fosse a minha estranha fixação pelo casamento, já o teria abandonado há muito tempo. Estou bem assim, com esses quilos a mais.

Os dois logo compreenderam que seu relacionamento estava naufragando e buscaram ajuda. Uma amiga de Isabel recomendou um psicólogo especialista em casais em estado crítico. Foram vê-lo.

Psicólogo: A relação de vocês está indo mal pelo excesso de sinceridade. Eu sugiro um remédio simples – o silêncio. Parem de dizer tudo o que pensam um do outro. Acostumem-se a falar pouco e a trocar somente frases cordiais. Em caso de urgência, habituem-se a escrever o que desejariam falar. Façam isso em segredo, nenhum dos dois precisa saber o que o outro escreveu. Aqui estão dois cadernos, onde escreverão as coisas ruins que deixarão de falar. Desejo sorte ao casal. Sejam felizes.

Carlos e Isabel saíram do consultório, cada um com seu caderno. Durante meses seguiram rigorosamente a orientação do terapeuta. A comunicação entre os dois tornou-se mais afável, embora curta. O diálogo entre eles reduziu-se à troca de algumas frases na frente da televisão. No restante do tempo, dedicavam-se a anotar no caderno o que não diziam um ao outro. O problema é que os cadernos foram se multiplicando com assustadora rapidez, e logo a casa começou a ficar cheia deles. Estavam empilhados em todos os cômodos, até no banheiro e embaixo da escada. Cadernos, uma imensidão deles. Tantos, que Carlos e Isabel tiveram que abandonar a casa: os cadernos, cheios de palavras não ditas, não deixaram espaço para os antigos ocupantes.

 

 




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