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19 de julho de 2019

Os cães na noite de agosto

Latem os cães na noite de agosto

e as árvores estão quietas,

nem uma folha se move.

Latem os cães e um passado perdido

retorna e também late

no peito e nos olhos do homem imóvel

no terraço do oitavo andar.

 

É inverno, agosto gelado, o vinho avinagra

esquecido na taça sobre a mesa,

como se esquece uma fruta numa fruteira,

a pera do Milton Nascimento

girando em falso na vitrola.

Poeira e moscas, freadas no asfalto,

buzinas enfurecidas, palavrões, ambulâncias,

e o homem imóvel no terraço do oitavo andar vê tudo,

ouve tudo,

lamenta tudo.

 

E o Milton girando em falso na vitrola.

 

Os cães ladram, talvez perguntem

o porquê de uma noite assim fria,

de uma história que não tem final,

ignorando que o tempo repete,

o tempo todo,

a mesma história e a mesma ausência

de final.

 

E o homem no terraço do oitavo andar sabe

que as perguntas dos cães

só têm uma resposta: que são inúteis os lamentos,

que o silêncio adivinha outro silêncio,

outra sombra,

a sombra.

 

E o Milton cantando sobre a pera

esquecida numa fruteira

não consegue aquecer a noite fria de agosto,

nem emudecer os cães que latem dentro dela.

 




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