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6 de julho de 2017

Os corvos

Todos sabiam que era um pau-mandado e, mesmo assim, viram com curiosidade e algum interesse quando ele chegou no trem das três àquele povoado de merda. O sol estalava. Entrou no boteco batendo a porta e atraindo o olhar dos desocupados que lá estavam. Andava como um personagem de filmes de faroeste, as pernas arqueadas e as pisadas sonoras. Encostou a barriga no balcão e pediu um uísque sem gelo. Bebeu de um trago só. Tirou duas notas amassadas do bolso da calça e cuspiu no chão a mistura de saliva, tabaco e álcool. Chamou a atenção do atendente com uma batida de mão espalmada na superfície do balcão e apontou o dinheiro com os olhos. Deu meia volta e caminhou para a saída. Os homens do boteco o olhavam em silêncio. Ninguém ousou perguntar o motivo da visita àquele fim de mundo, mas observaram atentamente quando ele cruzou a praça na direção da igreja. Lá dentro, caminhou sem olhar para os lados até a beira do altar. As beatas interromperam a monotonia do rosário e fixaram os olhos nele. Fez o sinal da cruz e murmurou palavras que só ele entendia. Depois respirou fundo e subiu os trezentos e sessenta e cinco degraus até o topo da torre, onde estava instalado o sino. Parou no parapeito e olhou para a frente. Tirou o revólver do bolso, apontou para a própria cabeça e apertou o gatilho. Antes de cair, seu corpo roçou as cordas do sino e o silêncio daquela cidade de merda foi quebrado pelas badaladas quando ainda não era hora da missa. E com essa trilha sonora seu corpo navegou no vazio, enquanto o povo reunido na praça, a respiração suspensa, viu, sem acreditar, o homem estatelar no asfalto, transformando-se numa pasta de vísceras, ossos e sangue. Todos admiraram a performance do sujeito. Alguém arriscou um aplauso, outro soltou um tímido assovio de aprovação, depois cada um foi cuidar da vida. Não tardou chegaram os corvos.

 




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6 de julho de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos corvos, homem, povoado

               
              
            
                

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