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11 de setembro de 2015

Os curtos

curtosQuando, naquela manhã, Bernardo apareceu de óculos na sala de aula, tudo mudou. Virou motivo de riso e deboche de todos. Sentiu pela primeira vez o gosto da rejeição e da vergonha. No recreio, diferente dos outros dias, deixaram-no sozinho comendo o lanche. Não o chamaram para o futebol.

– Quer brincar?, ele perguntou, baixinho.

Bernardo levantou os olhos. Era o colega esquisito, tão esquisito que não tinha amigos. Os outros garotos nunca se aproximaram dele, inclusive Bernardo. Era retraído, nunca falava e só gaguejava quando a professora fazia alguma pergunta.

– É que agora eu uso óculos, Bernardo balbuciou.

– Não faz mal. Todo mundo é um pouco curto em alguma coisa: você, dos olhos, eu, das palavras, disse o amigo esquisito.

– Você está falando, Bernardo reparou. Na sala você sempre fica quieto.

– Lá ninguém nunca quis saber de mim. Só porque sou esquisito e envergonhado. E gago. Mas a minha mãe diz que um dia vou aprender a falar direito. E então, quer brincar?

– Tá bom, vamos brincar, animou-se Bernardo, satisfeito por ter encontrado um novo amigo que não se importava com seus óculos.

Tornaram-se inseparáveis. Bernardo aprendeu que a amizade vê além da aparência. E que os curtos também podem ver e tocar o horizonte.

 




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11 de setembro de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos curto, gago, menino, óculos

               
              
            
                

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