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4 de janeiro de 2020

Os dias de cão

Somos miseráveis. Nunca pudemos ter um bichinho de estimação. Um pet, como se diz hoje em dia. Uma coisinha viva para acariciar, pôr no colo, sair para passear — não, um luxo assim era negado a pessoas como nós. Para contornar essa falta e realizar nosso desejo de ter um animalzinho em casa, decidimos fingir, por turnos, que éramos o nosso próprio bicho. Cada um de nós seria o cãozinho da família por um dia inteiro. Um pouco de circo para quem nunca se divertiu na vida.

No começo tivemos um pouco de vergonha, principalmente meus pais. Eles não sabiam imitar muito bem o latido nem exercitar o olfato dos cães, mas depois aprenderam. Quando chegava a minha vez, eu me esbaldava. Mijava em todo lugar para marcar território, roía os pés da mesa e almoçava o cadarço dos sapatos. Era uma festa e todos gargalhavam. Cada um esperava sua vez com ansiedade e, na noite anterior, treinava os latidos e o arreganhar de dentes. Os dias eram muito divertidos.

Por conta dessa brincadeira, minha mãe já não se ocupava da casa e meu pai desistiu de trabalhar. Eu fiquei livre da escola por uns tempos. Minha irmã mandou o namorado passear. Meus pais, depois que aprenderam a brincadeira, eram os mais animados. Criaram regras próprias, passavam o dia mordendo-se e lambendo-se, coçavam um ao outro, trepavam um sobre o outro, mesmo quando não era o turno deles. Nesses momentos reinava um quase silêncio na casa, um quase silêncio que aturdia, e eu bem no meio dele, aguardando a minha vez de latir. Essa vez demorava uma eternidade. Quando eu reclamava, eles me expulsavam para o quintal e que eu ficasse quieto lá.

A casa parecia um chiqueiro. Não se podia dizer que ali era morada de gente. Meus pais passaram a dominar o jogo do fingimento e me mandaram de volta para a escola. Queriam mais liberdade para praticar, sem ninguém observando — os egoístas. Quando chegava da aula, eu os encontrava refestelados nos ladrilhos da cozinha. Minha irmã se cansou da brincadeira e preferiu gastar as horas na rua. Começou a usar maquiagem e sempre voltava sem ela, à noite. Para mim era um tormento não poder fazer o bicho da família de vez em quando. Eu tinha latidos presos na garganta, que me engasgavam. “Amanhã você faz o cachorro”, meus pais me diziam. A minha vez nunca chegava. “Outro dia, viu, querido?”, e riam e se arrastavam pelo chão em quatro patas, esfregando-se e cheirando-se como dois animais no cio. Não era justo. Eu também tinha o direito de ser cão.

 




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4 de janeiro de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos cachorro, cão, família, pet

              
            
  1. Amei essa crônica. Consegui enxergar, visualizar em seu texto, cada um dos personagens vivendo os bichos escolhidos. Muito, mas muito bom! 👏🏽👏🏽😹

    • Deigma, que alegria ler seu comentário! Me deixa muito feliz saber que gostou do meu texto. Muito obrigado. Escrevi mesmo com essa intenção: que o leitor pudesse visualizar a cena e atribuir-lhe um sentido. Grande abraço e volte sempre aqui.

  2.     
                        
              
            
                

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