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23 de setembro de 2015

Os espelhos

espelhoAcabamos de nos mudar e esta era nossa primeira noite no apartamento novo. O prédio ainda estava vazio. Era um desses edifícios modernos, com vidros e espelhos por todo canto – nos corredores, nas áreas comuns e nos elevadores. Um edifício luxuoso, cuja unidade adquiri com muito dinheiro e sacrifício. Naquela noite éramos, por certo, os únicos ocupantes do imóvel. Estávamos muito felizes por mais essa conquista em nossa vida, eu e minha família.

Depois do jantar comecei a ouvir barulho vindo do apartamento da frente. Vozes alteradas, objetos jogados no chão, som de tapas, impropérios, móveis quebrando-se, gritos de papai, papai, não machuque a mamãe, som alto de choro de mulher. De repente o barulho acaba, e ouço apenas soluços abafados.

Decidido a ver o que acontecia, abri silenciosamente a porta do apartamento e saí até o corredor. Dei de cara com o vizinho. Observei seu rosto colérico, vermelho e suado, os cabelos em desalinho, marcas de sangue nas mãos. Ele suportou meu olhar com os olhos injetados e desafiadores. Nenhum dos dois disse palavra. Tive medo. Recuei dois passos e entrei no meu apartamento, fechando rapidamente a porta. Espiei pelo olho mágico e vi que meu vizinho tinha feito o mesmo. Havia silêncio ao redor, só quebrado pelo som do choro sussurrado de uma mulher e uma criança.

Agora que o pior tinha passado, disse baixinho que devíamos ir para o quarto e dormir, já era tarde e estávamos todos cansados. Passei primeiro pelo banheiro para urinar. Quando acabei, abri a torneira para lavar as mãos. Sorri ao perceber que não havia espelho acima da pia. Curioso, pensei, um edifício com tantos espelhos e não temos um no banheiro. Vou ter que fazer a barba no corredor.

Fechei a torneira. Enquanto enxugava as mãos, fiquei uns segundos contemplando a água e o sangue que, misturados, desciam pelo ralo da pia.

 




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23 de setembro de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos espelho, espelhos

              
            
  1. Uma fuga ilusória do monstro que o habita…E o reflexo assusta até o próprio.

    Mário parabéns…e obrigada
    Você sempre surpreendendo com suas palavras

    • Isso mesmo, Laudy, ele próprio se assusta com o monstro refletido no espelho. O monstro – ele! Obrigado pela visita ao meu blog. Volte sempre. Beijo.

  2.     
                        
              
            
                

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