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26 de agosto de 2020

Os esquecidos

Dentre os bairros esquecidos da periferia, esse é o campeão. Há esse subúrbio distante, encravado no limite de uma grande cidade, um lugar miserável feito de papelão, barro e lata velha, com cadeiras coxas nas portas das casas e um arremedo de jardim sem flor debaixo das janelas. Aqui vivem os esquecidos. Perambulam, comem quando conseguem o que comer, transformam coisas em cores e só têm olhos para onde seus pés pisam. As estatísticas não sabem que eles existem.

Um dia algo surpreendente aconteceu para além do bairro dos esquecidos. A terra tremeu e rachou, o mar se agigantou, milhões de insetos romperam os ovos ao mesmo tempo, as plantações secaram e os animais caíram doentes. A água ficou podre, a comida escasseou, o mato cresceu e tapou a paisagem, uma enfermidade veio após a outra, a lua se aquartelou detrás de um planeta qualquer e o sol pareceu esfriar. O mundo tinha acabado lá na cidade grande.

Enquanto tudo acontecia, o bairro dos esquecidos foi mais uma vez deixado de lado. Em lugar tão miserável não havia espaço para mais miséria. Quis a sorte que as latas velhas e o que havia dentro delas sobrevivessem ao fim do mundo. Agora é com eles, e só com eles, os esquecidos, os miseráveis, que está esse negócio de crescer e se multiplicar, crescer e se multiplicar. Isso foi escrito num livro que eles nunca leram.

 




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