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7 de março de 2019

Os esquecidos

Existe esse bairro desconhecido, encravado na periferia de uma grande cidade, um lugar miserável feito de papelão, barro e lata velha, com cadeiras coxas nas portas e arremedo de jardim sem água debaixo das janelas. Nesse lugar sempre deixado de lado vivem os esquecidos, aquela gente feia à qual a gente da cidade entende por bem dar as costas. É um aglomerado de mortos-vivos que perambulam, comem quando conseguem o que comer, transformam coisas em cores e só têm olhos para onde seus pés pisam.

Um dia desses, um dia qualquer desses, algo surpreendente passou a acontecer no mundo. A terra tremeu e rachou, o mar se agigantou para além do que é ser gigante, milhões de insetos romperam os ovos ao mesmo tempo, as colheitas secaram, os animais caíram doentes, os homens e as mulheres sentiram o pavor na pele e choraram pelo destino de seus filhos. A água que se bebia ficou podre, a comida escasseou, o mato cresceu e tapou a paisagem, uma enfermidade veio após a outra, o ar se encheu de poeira, a lua se aquartelou detrás de um desses planetas, o sol perdeu seus raios e pareceu esfriar.

Enquanto tudo isso acontecia, o bairro dos esquecidos foi mais uma vez deixado de lado. Em lugar tão miserável não havia espaço para mais miséria. Quis a sorte que as latas velhas e o que havia dentro delas sobrevivessem ao fim do mundo. Agora é com eles, com os esquecidos, que está esse negócio de crescer e se multiplicar de que falava um tal livro que eles nunca leram.

 




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