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11 de junho de 2018

Os estranhos

Sentado no banco desconfortável do trem, tento não pensar na dor contínua do bater de ossos embaixo de minha pele, me lembrando uma e outra vez de que estou velho e ainda vivo. Olho pela janela e observo a paisagem — o mundo sempre despertou minha curiosidade e é assim até hoje. Vejo crianças se divertindo no campinho de futebol, as pessoas caminhando apressadas, o comércio abrindo as portas, os flanelinhas guardando vagas, os mendigos, os sem identidade. Esse é o mundo.

Meus olhos esquadrinham, no começo da avenida, um homem jovem, alto, sem um grama de gordura no corpo, um ser elástico e atlético, talvez demasiado perfeito em sua normalidade, sem um pelo ou mancha na pele branca, sem uma só pequena deficiência. Fiquei olhando para ele e imaginando seus pensamentos. Sei de quem se trata e de onde vem. Aprendi a reconhecer pessoas como ele. Apareceram há muitos anos e estão entre nós fingindo ser como nós. Gosto de imaginar que não conseguem me enganar e que, de alguma maneira, posso observá-los sem ser notado. Continuo a olhar o homem sem defeitos parado na avenida e espero um pouco, só um pouquinho, até que ele faça o gesto que o incrimina: aquele beliscar suave da pele para ajustá-la melhor ao conjunto interior de ossos sintéticos. Ele faz e eu sorrio. Eu não costumo me equivocar.

No mesmo instante também eu sinto necessidade de conferir o que é meu: olho minhas mãos, trêmulas e enrugadas, cheias de manchas de velhice, ossudas e sem força, descamadas. Ele, em troca, terá a pele sempre nova como essa que tem agora. Ele e todos os iguais a ele, saídos das máquinas de fabricar pessoas em série, prontas para nos substituir quando estivermos imprestáveis. São eles, em sua absurda normalidade, que me recordam o inesquecível: apesar de tudo, inclusive de mim, sou e seguirei sendo humano, sem remédio.

 




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11 de junho de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos humano, mundo, ossos, pele, perfeito, pessoas

               
              
            
                

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