Close

27 de dezembro de 2016

Os famintos

No começo os famintos falaram, falaram e falaram, explicaram, argumentaram, justificaram o injustificável, gritaram palavras de ordem, fizeram pregações religiosas, protestaram, profetizaram, lançaram hipóteses fantásticas e inverossímeis, tiraram conclusões, criaram teorias, choraram, se descabelaram, ergueram o punho fechado, vociferaram, posaram de vítimas.

Pouco tempo depois os mesmos famintos, agora mais famintos, especularam, incitaram, questionaram, inquiriram, provocaram, criticaram com veemência, interrogaram, levantaram dúvidas, defenderam o indefensável, cobraram, apontaram o dedo, se contradisseram, acusaram até o limite e também além do limite.

Então os famintos mais que famintos se entrincheiraram, se intranquilizaram, tornaram-se obsessivos, mendigaram, se entusiasmaram, denegriram opositores, levantaram falso testemunho, se vangloriaram, se intrometeram, humilharam, desdenharam. Se juntaram e depois se dividiram. Mentiram e acreditaram em suas mentiras, discutiram com quem aparecesse pela frente, rechaçaram os que tinham opinião contrária, ameaçaram. Até que, finalmente, conseguiram que lhes dessem uma boa fornada de pão fresco e agora, com a boca ocupada, calaram-se por um tempo determinado.

 




Tags:,

27 de dezembro de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Prosa Poética famintos, pão

               
              
            
                

Deixe um comentário