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1 de maio de 2018

Os feios, os desocupados e os vadios

Os feios, os desocupados e os vadios esticam o esqueleto e a pança nos bancos da praça, viram o rosto com os olhos fechados na direção do sol e bocejam. Palitam os dentes, coçam o saco, praguejam. Consomem os dias assim, nesse nada-pra-fazer-e-que-se-foda. Deixam a vida passar, a cabeça sob chapéus de palha e gorros de lã, o outono modorrento estirado na poeira da rua. De vez em quando passa um carro de fora, certamente o motorista se equivocou e pegou a saída errada da rodovia. Ele olha para o grupo na praça e pergunta como pode voltar para a estrada principal. Os feios, os desocupados e os vadios sentem a boca salivar e o sangue empapar a visão, oba, vai ter movimento! Um deles olha para o motorista e indica com os dedos sujos o caminho dos ciprestes, aquele que começa no emaranhado das trilhas, logo ali adiante, direto pelo caminho da Rocha Preta, preste atenção na placa, não tem como errar.

Olham para o carro que se afasta e entre si. Enquanto uns feios acendem o carvão no braseiro, outros desocupados catam pedaços de pau e ferro pelo chão e outros vadios tiram da bota o facão de matar porco. Começam a andar, os pés bem postos no chão de terra batida, na direção dos ciprestes e do emaranhado das trilhas escuras e úmidas, no caminho da Rocha Preta, que vai desembocar em lugar nenhum.

 

 




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1 de maio de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos desocupados, feios, praça, sangue, vadios

              
            
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