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23 de maio de 2018

Os gritos de socorro

Desde que as crianças desapareceram, a cidade se encheu de um silêncio denso e quase mastigável. Todos fingimos que é normal, mas não é. Como também não é normal esse cheiro de adulto grudado em tudo. Não sentimos mais o aroma de caramelos de cereja nem o de chiclete sabor tutti-frutti. Tudo fede a desinfetante e a carro novo, a esmalte de unha e a consulta de médico homeopata. Mesmo assim, às vezes se pode sentir a presença delas. Isso aconteceu comigo anteontem. Passeava pela calçada e pensei ouvir um riso. Virei-me com rapidez e só o que vi foi uma sombra infantil tatuada na parede. É nisso que as crianças se transformaram, depois que foram banidas de nosso convívio: uma sombra. Nós, os adultos, nos esforçamos para seguir com a vida em toda a sua mesmice e monotonia. Nos levantamos, nos vestimos, saímos às ruas, ignoramos a ausência delas, comemos, bebemos, dançamos, rimos de algo e eventualmente transamos. Transamos com relutância, verdade seja dita, porque todos sabemos que o sêmen agora se derrama sobre ventres estéreis. Não haverá mais crianças neste mundo. Daqui a uns anos teremos esquecido tudo isso, por desimportante. E já teremos nos acostumado com as sombras, com a ausência dos risos, com o cheiro dos adultos e o silêncio mastigável de hoje em dia. Esse mesmo silêncio que substituiu os gritos de socorro que vinham de toda parte — das ruas, dos semáforos vermelhos, dos morros, das favelas, da periferia, dos viadutos, da cracolândia —, os quais ignoramos covardemente. Nossas tumbas estarão repletas desse silêncio, que não será quebrado nem mesmo pelo ruído de uma lágrima inexistente escorregando face abaixo.

 




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