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6 de março de 2019

Os homens da montanha, os homens do mar

Minha cidade não é um ponto no mapa, não se ouve falar dela e pouca gente sabe onde fica. Disso tudo eu sei e nada disso me importa. Com o fracasso tatuado no rosto — como dói! —, concluí que estava lá a paz que buscava. Deixei o mundo para trás e voltei. Em minha memória, era bonito o lugar onde tinha nascido: de um lado o mar, de outro a montanha e, no meio, a vida calma e comezinha de quem nada ambiciona e é feliz assim. A terra da minha cidade ainda não estava cansada e era fácil e bom viver onde o tempo parecia não passar.

Numa ocasião, quando podávamos as roseiras e admirávamos as estrelas, um homem saiu das águas e, com estardalhaço, balançando os braços como alucinado, gritou para a população que estava ali como amigo e vinha em missão de paz para informar que corríamos grande perigo. Uma onda de ódio e fúria tinha desabado sobre a montanha e as pessoas que lá viviam estavam se preparando para descer e invadir o vale, matar os homens, raptar as mulheres, abandonar as crianças e pôr fogo em todas as casas. Que todos se prevenissem para salvar a cidade da destruição certa. Assim disse o homem que veio do mar e, tão repentinamente quanto tinha chegado, desapareceu no meio da água barulhenta.

Todos se mobilizaram para resistir ao ataque dos homens da montanha. Aos poucos a cidade se transformou. Não mais calma, agora só alvoroço e pressa em estocar alimentos e água, fechar as portas e as janelas, recolher o gado, cercar a plantação, proteger as nascentes. Os homens olhavam o céu e se perguntavam quando eles viriam; as mulheres faziam uma cruz sobre o peito e não descuidavam das crianças. Na cidade onde eu tinha nascido, e que antes tinha paz, não se fazia outra coisa a não ser esperar a invasão da gente que vivia na montanha. Uma só certeza gritava no peito de todos os habitantes: dariam o sangue e o que mais fosse preciso para salvar o que não existia no mapa, o que ninguém sabia onde ficava.

Noite dessas, quando tudo não passava de silêncio e imensidão, e os homens se revezavam na posição de sentinela, e as mulheres se apressavam para assar os pães, e as crianças ficavam quietas nos cantos, e os olhos de todos não desgrudavam do brilho das fogueiras que vinha da montanha, a cidade foi invadida, os homens, mortos, as mulheres, raptadas, as crianças, abandonadas à própria sorte, as casas, queimadas. Quem invadiu e saqueou a minha cidade foram os inofensivos homens vindos do mar.

 




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6 de março de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos cidade, homens, invasão, mar, montanha, vale

               
              
            
                

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