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29 de agosto de 2018

Os imitadores da vida

São excelsos na arte de fingir que vivem. Imitam com tanta perfeição os movimentos humanos, que só a constante e mecânica repetição os denuncia como bonecos de madeira. Homens, mulheres e crianças vagam pelas ruas e cidades, parecidos com o que pretendem ser, e quase conseguem. O dono dessas criaturas exercita sua arte em detalhe: o brilho da pele, o volume da carne, o arregalado dos olhos, o floreio das mãos, o sorriso na visita ao zoológico. Um dos homens tem tique nervoso, uma mulher esboça de maneira permanente um meio sorriso, uma criança resfriada engole o muco que desce do nariz. Tudo transpira a humano, mas não é.

Se são quase perfeitos na imitação da vida, eles se superam na perfeição absoluta da morte: a gradual palidez que lhes invade o rosto, o abandono inanimado do corpo e a surpreendente, surpreendente rapidez com que apodrecem. O destino, implacável, cuida do resto: a sobrevida se dá por pouco tempo, em alguma fogueira ocasional. O vento termina o serviço.

 




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