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28 de janeiro de 2020

Os invisíveis

Os invisíveis são muitos,

são em demasia,

por isso é impossível não vê-los,

senti-los.

 

Vêm com os pés descalços ainda de madrugada,

espiam os edifícios e as casas,

as lojas e as igrejas,

as escolas, os hospitais, os escritórios, os restaurantes,

a porta giratória dos bancos.

Veem tudo e sabem,

têm certeza

de que nunca pisarão lá,

nunca serão iguais à gente que pisa lá.

 

São tenazes, entretanto,

e sua tenacidade é uma religião:

podem levar nos ombros o féretro de uma estrela,

engravidar a lua e se alimentar de nuvens,

podem destruir o ar como aves furiosas,

nublar o sol,

só não podem ser iguais àquela gente.

 

Desconhecem o poder que têm,

seus tesouros,

sua forja,

sua rija musculatura,

o rastilho de pólvora ainda seco e apertado nas mãos.

Cumprem a sina de entrar e sair por espelhos de sangue,

machucados, derrotados.

Caminham devagar

e morrem mais devagar ainda. Morrem sempre.

 

Morrem sempre.

 

Mesmo assim, os invisíveis continuam sendo muitos,

incomodam,

é impossível esquecê-los,

embora se tente todos os dias.

 




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28 de janeiro de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Poesia invisíveis

              
            
  1. Incrível!! A sensibilidade de falar dos invisíveis de nosso tempo é comovente! Coloca-nos frente a frente! Impossível ignorá-los! Amei essa leitura!

    • Obrigado pela visita ao blog e pelo comentário. Os invisíveis são muito visíveis, não é mesmo? A sociedade e o Estado insistem em não vê-los. E eles não sabem o poder que têm para reverter essa situação. Uma pena. Grande abraço.

  2.     
                        
              
            
                

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