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3 de novembro de 2014

Os meninos-placa

placa

 

Vitória tem 12 anos e trabalha como menina-placa nos fins de semana. Sua obrigação é ficar em pé numa esquina da cidade, durante seis horas, segurando uma placa em que se lê: “3 dormitórios, 1 suíte, lazer completo”. Vitória não sabe o que é suíte, mas imagina que seja uma coisa boa, de gente rica. Dormitório ela sabe, porque em sua casa não tem. Num só cômodo dormem ela, os pais e os dois irmãos menores; num canto fica o que ela chama de cozinha, porque lá tem um fogão e uma pia. O banheiro fica em frente, e é lá que Vitória mais gosta de estar, porque tem porta e ela pode passar uns minutos sozinha, lendo revistas.

Durante seu trabalho Vitória não pode se sentar, caso contrário terá desconto em sua diária de cinquenta reais. O fiscal faz a ronda duas vezes ao dia para verificar se todas as meninas estão em pé; quem for encontrada sentada perde cinco ou dez reais no pagamento final. O que importa é que os pedestres e os que passam de carro pela rua vejam a placa e se interessem em conhecer o empreendimento. Para que a placa seja vista, é preciso que as meninas-placa fiquem em pé. Mesmo que as pernas doam muito, Vitória fica firme em seu posto.

Nos dias em que trabalha como menina-placa, Vitória leva lanche de casa e come com as colegas das outras esquinas. Todas se sentam na sarjeta ou sob alguma marquise, quando o sol está muito forte, e desembrulham seu sanduíche, a placa largada na calçada. Conversam sobre namorados ou o baile funk de sábado à noite. Por alguns minutos elas se esquecem de que são meninas-placa e se tornam apenas meninas, falando sobre coisas de meninas. Riem alto, ajeitam o cabelo, retocam a maquiagem. Quinze minutos depois cada uma já está de volta a seu posto de menina-placa, para o segundo turno daquele dia.

Quando o trabalho termina, Vitória entrega a placa ao fiscal, recebe seu pagamento e anda até o ponto de ônibus. Aproveita para dormir durante as duas horas de viagem para casa. Amanhã é domingo, e haverá nova jornada de placa na mesma esquina. Mas hoje é sábado, à noite tem baile e ela vai se encontrar com Alan, o namorado de 15 anos. Alan também trabalha como menino-placa nos fins de semana, só que em outro bairro, bem distante de onde Vitória fica. Na placa de Alan lê-se “3 dormitórios, varanda gourmet, financiamento direto com a construtora”. Alan não sabe o que é varanda gourmet, mas imagina que seja uma coisa boa, de gente rica. Financiamento ele já aprendeu, porque comprou um par de tênis em dez parcelas. “Rapidinho você termina de pagar”, tinha dito a moça da loja. Ele e Jefferson compraram tênis iguais, no mesmo dia em que foram ao shopping.

Jefferson é o melhor amigo de Alan, tem 14 anos e também trabalha como menino-placa. Na placa que ele segura está escrito: “Casas em condomínio fechado, segurança total.”. Ele namora há dois meses com a Jéssica, que segura placa numa esquina não muito longe dali.

 

 




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3 de novembro de 2014 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos esquina, meninos, placa

               
              
            
                

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