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21 de agosto de 2020

Os mourinhos

No céu da pátria dos pássaros voam todas as espécies, menos uma: os mourinhos, que forjaram uma nação somente para eles. Com seu modo particular de viver, livraram-se dos riscos de voar. Voar é uma aventura, e toda aventura tem uma dose considerável de risco: a vida por conta própria, os predadores, o mal tempo, a busca por comida etc. Os mourinhos não se importam com aventuras e há muitas gerações praticam clara filosofia: vivem presos e enaltecem a prisão. Ficam confinados porque querem. Para eles, a gaiola não encarcera, antes protege. Tudo de que necessitam para viver está do lado de dentro, na jaula onde passam os dias. Não sentem falta da vida lá fora e são felizes assim. “A felicidade nem sempre é divertida”, costumam dizer.

Em tempos passados, mourinhos atrevidos se arriscaram e saíram batendo asas céu afora. Não sobreviveram. Seus companheiros explicaram que eles não souberam procurar alimento, mas isso não é verdade. O que aconteceu foi que a imensidão azul e o ar ilimitado paralisaram o coração daqueles ousados, que parou de bater por medo de tanta liberdade e tanto espaço. Foi assim que, por uma decisão que atravessou gerações, os que vieram depois renunciaram ao apelo da natureza das aves, que é bater asas e desbravar os ares, e se conformaram com a pequenez de poucos centímetros sob os pés.

Bem alimentados e seguros na gaiola, os mourinhos das gerações de hoje se sentem as aves mais inteligentes do mundo. Nesta época em que a pátria dos pássaros sofre ataques frequentes e eles são abatidos por balas perdidas, os mourinhos deliram de gozo e prazer, convictos de que estão no lado certo da trincheira. É quando enchem o peito de orgulho, incham a garganta e soltam no ar um canto agudo e vigoroso, um canto tão forte que encobre o ruído das asas quebradas e o triste piar dos outros pássaros, que insistem em voar alto no céu e, enfraquecidos e impotentes, caem e agonizam misturados com a erva do chão.

 




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