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12 de novembro de 2019

Os mourinhos

Na pátria dos pássaros existem todas as espécies, menos uma: os mourinhos, que forjaram uma nação somente para eles. Com seu modo particular de viver, livraram-se dos riscos de voar. Voar é uma aventura, e toda aventura trás em seu interior uma dose considerável de risco: a vida por conta própria, os predadores, o mal tempo, a busca por comida etc. Os mourinhos, ao contrário, não se importam com aventuras. Praticam clara filosofia: enaltecem a prisão e ficam confinados porque querem. Para eles, a gaiola não encarcera, antes protege. Tudo de que necessitam para viver e serem felizes está do lado de dentro, na jaula onde vivem. A felicidade nem sempre é divertida, costumam dizer.

Têm muita fome e são excelentes cantores. Em tempos passados, mourinhos atrevidos se arriscaram a sair e a bater asas céu afora e não sobreviveram. Seus companheiros explicaram que eles não souberam procurar alimento, mas isso não é verdade. O que aconteceu foi que a imensidão azul e o ar ilimitado paralisaram o coração daqueles mais afoitos, que parou de bater por medo de tanta liberdade e tanto espaço.

Bem alimentados e seguros na gaiola, os mourinhos aspiram a ser as aves mais inteligentes do mundo. Numa época em que a pátria dos pássaros sofre ataques frequentes e eles são dizimados por balas perdidas, os mourinhos deliram de gozo e prazer, convictos de estarem no lado certo da trincheira. É quando enchem o peito de orgulho e soltam no ar um canto agudo e vigoroso, um canto tão forte que encobre o ruído das asas quebradas e o triste piar dos pássaros que voam alto no céu e, impotentes, agonizam, mesclados com a erva do chão.

 




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