Close

1 de julho de 2015

Os normais

doentesÍamos os dois com pressa no meio da multidão e nos esbarramos numa esquina. Eu andava olhando as nuvens, ela, o chão. Dissemos “Olá, tudo bem?”. Mostrei a ela meu dedo machucado e disse o quanto isso estava me incomodando. Ela indicou o lábio inferior e me disse que estava cheio de aftas. “E dói, dói” – ela reclamou. Eu fiz uma cara de dor e apontei o corte que tinha feito ontem no braço enquanto tentava consertar a janela de casa. Ela fez questão de me mostrar os hematomas que ganhou na perna quando tentava entrar no metrô lotado, agorinha mesmo.

– Ah, na perna, foi? – disse eu, com ar triunfante. E continuei: Olhe só que coincidência! Eu quase perdi meu pé ainda agora na maldita porta giratória do banco, veja como está inchado. E ainda fiquei com um zumbido na orelha por causa daquele desgraçado alarme que não parava de gritar.

– Por falar em orelha – ela não escondia o sorriso de satisfação -, está vendo esse meu ouvido direito aqui? Não ouço nada por ele, nadinha. Surdez total. Culpa do prédio nefasto que estão construindo ao lado de casa. Aquela britadeira ainda vai me mandar para um hospício.

– E esse meu braço esquerdo está mais pra lá do que pra cá; quebrei o úmero quando tentava arrastar a estante da sala – eu estava em vantagem.

– E essas marcas aqui – ela levantou um pouco a blusa –, sabe do que são? Passando roupa, meu amigo. O ferro em brasa encostou na minha barriga e só não me torrou inteira porque eu fui mais rápida.

– Olhe aqui a minha perna, toda mordida pelos cachorros do vizinho.

– Isso aqui no meu pescoço foram as abelhas que fizeram. Mas não qualquer abelha, foram as africanas, aquelas criadas, com ferrão gigante. Vê como está inchado?

– A minha bursite está me matando!

– E a minha artrite então? Quando ameaça chuva eu quero me suicidar!

– Flebite!

– Gastrite!

– Otite!

– Labirintite!

Nesse momento consultamos o relógio e nos despedimos. Fomos cada um para um lado, ainda apressados no meio da multidão, ela olhando para o chão, eu, para as nuvens. Mas agora um pouco mais aliviados.

 




Tags:

1 de julho de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos normais

               
              
            
                

Deixe um comentário