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8 de agosto de 2016

Os números vermelhos

menino4Ontem o Rivelino subiu pro céu. Eu não vi quando ele foi embora, minha mãe quem disse. Rivelino era um gato que não comia rato, não tinha cor nem pelo de gato, e também não tinha rabo. Estava sempre miando por comida. Às vezes ele desaparecia, mas sempre voltava quando estava com fome. Minha mãe falou que o Rivelino foi pro céu porque estava muito velho, como o vovô. Porque quando a gente fica velha, vai pro céu, mesmo não querendo, ela disse. Eu fiquei na dúvida. O meu primo Celinho, filho da tia Aurélia, foi pro céu no ano passado, e ele era um menino ainda.

Tem muita coisa estranha acontecendo aqui em casa, e eu acho que o motivo de tudo é a crise. Meu pai fala que ela está acabando com tudo, mas não me explica muita coisa, diz que sou pequeno ainda. Eu sei que a pior coisa da crise é quando aparecem os números vermelhos. Estamos no vermelho, veja os números, temos que cortar e economizar mais, apague essa luz, menino, feche a torneira!, meu pai dizia essas coisas mostrando um papel cheio de números pra minha mãe. Eram os números vermelhos, e eu comecei a ter medo deles.

Acho que a crise é uma doença. Minha mãe teve crise a semana passada e ficou muito mal. Perdeu a vontade de sair de casa, não foi mais ao salão de beleza pintar o cabelo e as unhas. Dizia que era tudo por causa dos números vermelhos. Ficava com preguiça até de sair da cama, e eu tinha que ir ao quarto dela pra avisar que estava com fome. Tem uns dias que eu também pego crise e quero ficar mais tempo dormindo, mas é só por causa da escola. Nos fins de semana a crise passa, eu fico bom de novo e vou brincar no parquinho.

Hoje meu pai me disse que vai fazer uma festa bem simples no meu aniversário, que é no mês que vem, e só posso convidar dois ou três primos, não todos os meus amigos do colégio, como no ano passado. É a crise, ele avisou, os números estão vermelhos. Quando você crescer vai entender melhor. Ele falou pra eu não pensar mais nisso mas, quando ele não está por perto, eu continuo pensando. Puxa vida, a crise pegou o meu aniversário, e logo agora que eu vou fazer seis anos!

Outro dia ouvi minha mãe falando com a tia Aurélia pelo telefone. Reclamou da crise, falou dos números vermelhos, disse que o meu pai estava com medo de perder o emprego, chorou um pouquinho, Menina, essa é a pior crise que já aconteceu, agora é arroz, feijão e ovo frito e olhe lá, carne só uma vez por semana, vou ter que mudar o Mateuzinho de colégio, fazer o quê?

Mateuzinho sou eu. Parece que a crise é mesmo uma doença muito contagiosa, que pegou todo mundo, menos o Rivelino, o vovô e meu primo Celinho, que foram pro céu antes. Acho que quando crescer eu vou ser cientista e inventar uma vacina contra a crise, pra ninguém mais ficar doente. Mas agora eu vou brincar e depois eu penso nisso.

 




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