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13 de abril de 2015

Os números

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Um 2 ignorante percebeu outro dia que era a metade de 4, e isso o deixou deprimido. Não suportava ser a metade de nada. Seus pais tentaram minimizar a situação: Não pense que você é a metade de 4, mas o dobro de 1. Não é melhor assim? Como ele era um 2 pessimista, e só via o lado ruim das coisas, não descansou enquanto não se tornasse um 4. Só serei feliz sendo um 4, pensava.

Lutou tanto que conseguiu finalmente se transformar em 4. Ele estava muito orgulhoso de sua nova condição. Olhava-se no espelho e sorria para si mesmo: Sou um 4, um belo 4! Não tardou para que pessoas mal-intencionadas atravessassem seu caminho e plantassem a dúvida e a incerteza em seu coração: Você agora é a metade de 8, por que se vangloriar?

Isso foi fatal para o novo 4. Ele era novamente a metade de algo? Não, isso não podia ser. Ele tinha que fazer algo, não podia ser a metade de algo ou de alguém. Seus pais entraram novamente em ação: Filho, pense que agora você é o dobro de 2. Há poucas pessoas no mundo que podem se dar ao luxo de serem o dobro de 2!

Mas não, o novo 4 não podia aceitar isso. Lutou, se esforçou o máximo que pôde e finalmente logrou se tornar um 8. Agora sim, pensou ele, sou um 8 com muito orgulho. Gorduchinho, bonitinho, simpático: um 8 com mérito!

O destino, esse sujeito que não é amigo de ninguém, novamente mostrou as garras: um grande desafeto daquele antigo 4 apareceu e disse, com toda a maldade de que era capaz: E você está feliz por ser um 8? Ora, você é apenas a metade de 16, seu bobo!

Isso foi mortal para o novo 8. Novamente ele se deprimiu e se sentiu humilhado por ser a metade de algo. Como sua mãe já tinha morrido, somente seu pai apareceu para consolá-lo: Filho, filhinho, pense que você é o dobro de 4, esqueça o 16!

Esta história começou há cinco trilhões de anos e, desde aquela época, as metades nunca se conformaram com sua condição de metades, e sempre quiseram ser o dobro de algo. Mas, desde que o mundo é mundo, sempre existirão as metades e os dobros de qualquer coisa. Exatamente como era há cinco trilhões de anos – que, por sinal, é a metade de dez trilhões de anos.

 




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13 de abril de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos dobro, metade, números

              
            
    • Benedito, obrigado pela visita. Enquanto o infinito não chega, os números refletem a nossa eterna insatisfação. Sempre queremos ser o que não somos, e assim a vida segue, cheia de frustrações (só para alguns, felizmente!). Apareça mais por aqui. Grande abraço.

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