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7 de março de 2016

Os olhos azuis do marinheiro

marinheiro2Eu te amei como ninguém, sabe? Por ti me fiz marinheiro e errei por todos os mares deste mundo, ano após ano, sempre pensando no dia da minha volta, no dia em que teus braços me apertariam o pescoço e de teus lábios sairiam as palavras “como demoraste!”. Por ti abandonei minha mãe e meus amigos, minha cidade e os do meu sangue: por ti, que me enganaste e te riste de mim. Por ti enfrentei tempestades e as ondas mais altas dos oceanos. Mas minha vingança está dada, e o castigo desabou depressa sobre a tua cabeça. Tudo o que te passa agora eu já sabia antes de acontecer. Eu sofri como alma penada quando me contaram que estavas com outro. Sofri o diabo e quis que o mar me engolisse. Agora me acalmei. Fiques com esse bêbado vagabundo, que agora te dá na cara todos os dias e deixa teus filhos sem pão. Tu o mereces.

Sentados na areia, os dois olhavam o mar. O barulho da quebradeira das ondas não tirava a atenção de Ordália, que ouvia o marinheiro de olhos baixos. A espuma tornava brancas as águas, que logo em seguida ficavam azuis para gestar novas e maiores ondas. Como os olhos azuis do marinheiro.

Se ao menos fosse outro… Eu o teria matado a golpes de machado. Mas não. Rosalvo é meu amigo de menino, eu não seria capaz. Mesmo bêbado e vagabundo e miserável, é quase meu irmão, e eu tenho sentimentos. Ele não tem culpa de nada. A única culpada és tu, que me traíste. Tu deves sofrer, assim como eu sofri.

Uma onda enorme se quebrou ao pé dos dois, e Ordália soltou um grito abafado. Sentiu as pernas molhadas e encolheu-se de frio. Aproximou-se mais do marinheiro buscando se aquecer.

Tu te lembras como tudo aconteceu? Eu sim, como se fosse ontem. Éramos duas crianças, tu e eu, crescendo ao mesmo tempo, brincando nesta mesma praia, pisando esta mesma areia milenar. Juramos que íamos nos casar, eu jurei que iria primeiro conhecer o mundo e ganhar dinheiro, tu juraste que me esperaria. E, quando eu voltasse, tu dirias “como demoraste!”. Minha primeira vez foi contigo, tua primeira vez foi comigo. Estávamos jurados um para o outro. E então eu voltei. E então me disseram no cais que tu estavas às voltas com o Rosalvo. E então eu amaldiçoei o dia da minha partida. E então eu chorei o que homem nenhum chora. E então me acalmei.

O frio agora era mais forte ali na beira da praia, a tarde escurecia e o marinheiro se calou. O mar estava agora sereno e o quebrar das ondas era mais suave, quase inaudível. Ordália esticou o corpo na areia.

Chorei e também senti raiva. Fosse outro que não o Rosalvo, eu o teria matado. Percebi depois que queria me vingar de ti, porque jogaste fora nossas juras. Mas não tive que fazer nada: eu sabia que, ao lado do Rosalvo, só a miséria esperaria por ti. A miséria, a provação, a humilhação, a falta de tudo. É isso o que tens agora: nada! Depois de muito chorar, voltei a correr mundo. Trabalhei muito, conheci outras mulheres, bebi, joguei, ganhei dinheiro, me diverti, gargalhei. E tu, na miséria dessa vida com o Rosalvo. Essa foi a minha vingança: deixar-te apodrecer ao lado de quem só te maltrata. Por isso voltei aqui: queria ver de perto o quão acabada estás.

O sol sumiu por completo. Nesse tempo de inverno, há poucas estrelas no céu. Uma lua embaçada lançava raios opacos sobre o corpo de Ordália. A areia ainda estava quente.

Estás mudada, sabe? Estás feia, magra, teus peitos murcharam, teu cabelo está sem brilho, estás suja. No teu rosto estão as marcas das surras que levas de teu macho. És uma desgraçada e já não te quero. Meu amor por ti murchou, como a espuma dessas ondas. Que sofras o mesmo que eu. E agora deves correr, anda, teu marido te espera.

Ordália voltou a cabeça para o marinheiro pela primeira vez durante toda a conversa, mas os olhos dele estavam perdidos no horizonte. Ela se levantou e caminhou pela areia na direção de sua casa. O marinheiro ficou ali, olhos fixos no mar. Sentiu com a língua o gosto salgado das lágrimas que de repente lhe inundaram o rosto. Olhos e mar – o mesmo azul, o mesmo sal.

 




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