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14 de junho de 2018

Os perdedores

João e Maria executavam diariamente e com dedicação o treinamento pra morrer. Lerdos os movimentos, preguiçosos os passos, mínimos os esforços pra respirar, era assim que marido e mulher passavam as horas. Amanheciam e anoiteciam tombados no sofá da sala, a televisão ligada em qualquer canal, não importava. Os olhos esgazeados não viam nada. Arrastavam-se pra ir ao banheiro e deslizavam até a geladeira pra comer alguma sobra congelada da noite anterior: isso era tudo o que faziam, semanas a fio.

No dia 1º de cada mês ressuscitavam: o pagamento do seguro-desemprego chegava pontualmente. Tratavam de se arrumar, buscavam a aprovação do espelho: ele e seu bigodinho de gângster, ela e a cabeleira ruiva à la Rita Hayworth. Ganhavam as calçadas, visitavam os restaurantes e as lojas, se encontravam com os amigos, iam às manifestações de rua e gritavam Fora!, riam, bebiam e dançavam, despreocupados no começo, com urgência depois, cientes da brevidade de sua vida — a vida dos perdedores.

 




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