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2 de dezembro de 2015

Os seres melancólicos

casal2– Por acaso você tem a nova edição de “A Polaquinha”, de Dalton Trevisan?

– Senhor, isso aqui é uma loja de calçados.

– E isso impede que você venda os livros de Dalton Trevisan?

– Por favor, cavalheiro, estou sem tempo para essas brincadeiras.

– Está sem tempo? Não me diga que você está morrendo!

– Claro que não, por que me diz isso?

– Sua cara não está mesmo boa.

– É o calor. O ventilador da loja está quebrado.

– Então vamos lá para fora. Podemos continuar a conversa e fumar um cigarrinho.

– Está bem, que seja. Qual é o seu nome?

– José Eduardo.

– Eu me chamo Maria Cecília.

– Pode me dar um cigarro, Maria Cecília?

– Claro, por que não? Um não me fará falta.

– É bom fumar, não? Foi uma pena deixar esse vício, mas ultimamente estava me fazendo muito mal mesmo.

– E por que está fumando agora?

– Quando vi você dentro da loja me deu uma vontade irreprimível de fumar.

– Ah, isso foi a coisa mais bonita que me disse até agora. Fico agradecida.

– Eu posso dizer coisas ainda mais bonitas que essa.

– Por exemplo?

– Hum, não me ocorre nada agora. Mas sei que sou capaz de dizer coisas bonitas, muito bonitas mesmo.

– Quem é você, homem misterioso?

– José Eduardo Dominguez, corretor de imóveis, ao seu dispor. Às segundas janto com meus amigos gays, tão divertidos! Falamos de sexo, de homens bonitos e homens feios, e eles têm opiniões muito bizarras sobre a beleza masculina. Às terças escuto boleros no meu boteco favorito, às quartas jogo futebol com meus colegas de trabalho, às quintas costumo praticar sexo com uma das meninas do Las Guapas, às vezes também aos domingos, para afastar a solidão. Às sextas me embriago vendo filmes antigos na televisão. E aos sábados ando pela cidade como um cão sem dono, até meu corpo implorar por descanso. Agora fale-me de você.

– Maria Cecília de Barros, vendedora de uma loja de calçados, antiga funcionária de um hotel de luxo. Às segundas ouço música brasileira, às terças vou para a academia, às quartas encontro minhas amigas e bebemos juntas, às quintas ouço pop britânico, às sextas choro sozinha em casa, o que costumo fazer também aos domingos, e aos sábados costumo adormecer na cama de algum desconhecido.

– A vida é um tédio, Maria Cecília. Algum filósofo disse que a mãe do comportamento impulsivo, sem controle, não é a alegria, mas sim a ausência de alegria. Por isso eu tenho vontade de tudo, menos de estar alegre e controlado. Por exemplo, eu gostaria, agora mesmo, de trepar com você e que você me pedisse perdão um segundo antes de chegar ao orgasmo. Perdão, José Eduardo, você falaria. Eu iria lhe fazer um carinho e lhe daria um beijo, e deixaria o meu orgasmo para mais tarde. E você, um segundo depois, me pediria perdão por ter me pedido perdão.

– Na realidade, isso não é falta de controle.

– É verdade, nem de longe.

– Mas cumpre a mesma função: diminuir por um momento a melancolia. Somos dois seres melancólicos, José Eduardo.

(!)

– O que foi isso, Maria Cecília?

– Isso foi um beijo.

– Você acaba de me beijar?

– Perdão, José Eduardo.

 




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2 de dezembro de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos melancólicos, seres

              
            
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