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19 de outubro de 2015

Os tomates

tomatesEu e minha mulher, na mesa do jantar. Num só fôlego, confessei que a tinha traído uma vez. Eu disse que, por mim, o assunto já estava encerrado e nenhuma lembrança tinha restado. Ela ficou muda. Parou de mastigar e fixou seus olhos em mim, na intenção de apreender o significado inteiro do que eu havia falado. Segurava o garfo suspenso no ar, como se estivesse pensando no que acabara de ouvir, os olhos ainda pregados nos meus. Seu olhar era o de quem estava me conhecendo naquele instante. Baixei a vista e remexi a comida no meu prato. Ainda tentei dizer alguma palavra que quebrasse o silêncio insuportável que tinha se instalado na mesa, mas desisti: aqueles olhos – fixos demais, inquisidores demais – postos em mim quebraram qualquer iniciativa que eu pudesse ter de amenizar o clima. Na saladeira havia ainda um resto de tomate, esperando – como eu – ser devorado. Ela abriu os lábios para pronunciar uma frase demolidora:

– Me passe o sal, por favor.

Sem mais, sem menos, assim: Me passe o sal, por favor. Temperou os tomates e os comeu tranquilamente, como se nada tivesse sido dito. Nesse instante eu me senti mais traído que ela.

 




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