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15 de setembro de 2019

Os tontos que se dizem Hemingway

Quase perco a paciência quando não há sol, e faz algumas semanas que ele não aparece. Isso altera o meu humor. Que esse filho da puta venha logo e estorrique o chão, esquente as ondas e a areia da praia, ilumine este fim de mundo e me traga inspiração. Em ocasiões assim abuso do rum. Não há melhor bebida que o rum: não sobe tão rápido quanto o uísque, é doce, não deixa gosto ruim na boca como a cerveja ou o gim. Eu sou dono de um bar, meu estoque de rum é grande, não reclamo. O rum clareia a cabeça e, o maior bem de tudo, não me deixa bêbado. É bom para escrever. Beber rum e escrever: outro Hemingway não faria melhor.

Aí vem mais um. Eu o reconheci de longe enquanto punha ordem nas garrafas e copos sobre a pia. Outro bêbado, e esse sol que não aparece… Ele chegou devagarinho, chacoalhando com cadência o corpanzil, olhou para os lados e depois para mim. Encostou a barriga no balcão e me disse que era Hemingway. Ernest Hemingway, o próprio, assim ele falou. Falou é modo de dizer: ele sussurrou no meu ouvido. Não gosto de bajulação, por isso fale baixo. Fica entre nós, right?, completou, com uma piscadela.

Apresentação feita, pediu rum misturado com Coca-Cola. Nem tanta Coca-Cola, my friend, mais rum, understand? E começou a explicar a simbologia que quis explorar em “O velho e o mar”, o propósito, a obstinação, o homem tão pequeno e indefeso contra o gigantismo do oceano, o sol que cegava, as feridas nas mãos, os tubarões, a condição humana, essas coisas, understand? Pode ser mais um dedinho de rum, if you don’t mind?

Ele começaria a falar sobre os simbolismos de “Por quem os sinos dobram?” não fosse a minha falta de paciência. Quando vi que iria deitar palavrório sobre outro livro, eu o agarrei pelo colarinho e o pus para fora do bar. Não estava disposto a ouvir mais um bêbado dizendo que era Hemingway. Não sei que obsessão maldita têm esses tontos. Vêm beber aqui no meu bar e, feito loucos mansos, desandam a falar que são nada mais nada menos que Ernest Hemingway. E por que precisamente Hemingway? Por que não T. S. Eliot? Ou Capote ou Fitzgerald?

Não diriam que são nada, nem Hemingway ou qualquer outro, se soubessem medir os fracassos de uma vida inteira. Se soubessem que se fracassa melhor com o tempo, e que não há melhor conselheiro do que um bom fracasso, daqueles de deixar o sujeito plantado com o traseiro no chão. Não se atreveriam a dizer que são Hemingway se percebessem que os caminhos só se abrem quando se decepa o mato na raça, ainda que o facão esteja enferrujado ou até mesmo não haja facão, e só se conte com a força das mãos, dos pés e da vontade. Que escrever “O velho e o mar” é passaporte para uma humanidade melhor. E que um Hemingway não se faz com pouca coisa, que disso eu e meu copo de rum entendemos. Para que servem os caminhos senão para nos conduzir a nós mesmos?

Que digam que são Hemingway não é o que mais me incomoda, nem sua fala pastosa e desordenada. O que mais me irrita é esse olhar seguro e cheio de soberba que exibem ao dizer Eu sou Hemingway. Odeio quando fazem isso. Odeio essa maneira que têm de me olhar com superioridade e esse discurso empolado, vomitando verdades em que só eles acreditam.

Por acaso, além de bêbados, são tontos? Por acaso não sabem ou desconfiam que, na realidade, Ernest Hemingway sou eu? E por acaso pensam que é fácil ser Ernest Hemingway? Esses tontos não sabem de nada.

 




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