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20 de abril de 2017

Os varredores

O país está em convulsão. As cidades estão impregnadas de vazio. Na minha, onde moro há 50 anos, hoje um carro me atropelou os olhos com seus faróis de milha enquanto eu caminhava para organizar meus pensamentos. Um desperdício, já logo se vê. Tem cabimento usar farol de milha para trafegar pela cidade? Mesmo numa cidade impregnada de vazio? O motorista me xingou por eu ser tão distraído. Olho em volta e percebo que ninguém mais aprecia o subir e descer dos aviões. Nada mais importa para quem circula apressado pelas vias da minha cidade.

Na minha cidade, nesta noite, os varredores estão trabalhando. Limpam os bueiros, varrem as sarjetas, as ruas e avenidas, os becos, praças e parques. Nada os impede, suas vassouras os levam até as ruas da periferia, até os limites do município, ao norte e ao sul. Varrem meus pensamentos, minhas ideias, meus passos, minhas pernas. Agilmente, manipulam suas escovas, suas magras escovas bailarinas. Meus sapatos escapam de mim, levados por elas.

Eu caminho atrás deles, dos meus sapatos, mas logo desisto. Tento recuperar meus pensamentos, levados pelas vassouras. Consigo alguns de volta. Na praça ao meu lado ladram os cães, vagabundos entre as ervas rasteiras. As corujas comem os beijos que ficaram pelos bancos, depois que os varredores passaram. Elas não olham para mim, ocupadas em seu mister. As vassouras tentam varrer minhas costas, mas me esquivo e me escondo na noite preta. Os varredores fazem montinhos com as folhas secas e as estrelas caídas, usam a pá que carregam no ombro e depositam o entulho na beira do riacho. Amanhã alguém catará esses montinhos e os levará ao destino final.

Um varredor grita algo a outro, que repete a outro mais longe, e este faz o mesmo a outro ainda mais distante. Logo todos os varredores de todas as ruas estão falando ao mesmo tempo, como uma só voz. Eu passo entre seus gritos, no meio da espuma de suas vozes, me perco no abismo do significado do que dizem e aperto o passo.

Aperto o passo, estou com pressa. Não tenha eu o azar de ver minhas pernas varridas uma segunda ou terceira vez. Mas sorte foi o que não tive: o caminho foi varrido e agora uma chuva de vassouras cai sobre a minha cabeça. Tudo se transforma de repente e a minha cidade, antes impregnada de vazio, entra em convulsão. Como, de resto, o país.

 




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