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23 de outubro de 2014

Os vizinhos

predios

Não é fácil viver em condomínio. Quem consegue pode se considerar um ser iluminado. Pode, inclusive, reclamar algum prêmio por dominar a arte de dividir o elevador com pessoas horríveis, suportar encontros desagradáveis nas escadas, ser paciente com o lixo jogado sem embalagem nas lixeiras, aguentar com um sorriso o chute na canela de pestinhas sem a menor educação, entre outros dissabores. Catarina vive num condomínio.

Os vizinhos dizem que é muito difícil conviver com ela, que seu filho sempre faz bagunça e barulho quando desliza pelo corrimão, que sua comida faz muita fumaça e cheira mal, que seu cachorro late muito e incomoda quando todos querem descansar, que isso, que aquilo, que aquilo outro… A lista de reclamações não tem fim. Catarina não é mulher de deixar os problemas se avolumarem e sempre procura a solução mais rápida e adequada. Seu lema é viver em paz. Se o cachorro late muito, pronto, aqui está uma focinheira; se o menino incomoda quando brinca no corrimão, pronto, ela o pega no colo quando precisa sair. Quanto à comida, bem, Catarina ainda não resolveu esse assunto por completo, mas está quase lá.

Comprou uns caldeirões bem grandes, maiores que aqueles que já utilizava, e deu prosseguimento à tarefa de construir a paz no condomínio. As duas velhinhas do apartamento da frente foram as próximas. O cheiro de suas carnes derretendo na água fervente não era mesmo dos melhores. E ainda havia a fumaça, quanta! O casal esnobe do andar de baixo foi em seguida. “Pronto, agora esses dois não vão mais contar em voz alta no elevador sobre a viagem à Europa”, pensava Catarina, enquanto abria todas as janelas do apartamento para que a fumaça saísse. O porteiro foi o que derreteu mais rapidamente e soltou menos fumaça. “Melhor assim, aquele baixinho não tinha mesmo muita carne”, concluiu Catarina.

As reclamações diminuíram sensivelmente. Catarina fez a contabilidade de cabeça: “Agora só faltam a mãe e o filho pequeno do quarto andar, os dois aposentados do segundo e a solteirona do quinto”. Quando isso terminar, o filho de Catarina vai deslizar quando quiser pelo corrimão, seu cachorro poderá latir à vontade e ela voltará a fazer os pratos deliciosos de sempre. E poderá se orgulhar de ter lutado tenazmente para conquistar a paz no condomínio.

 

 




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