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20 de novembro de 2017

Oxigênio

Belo, mais que belo, é o pôr do sol que Maria Salete admira todas as tardes sentada na varanda de sua casa. Mexe a cadeira de balanço com a ponta do pé e deixa o corpo ir e vir devagarinho. Ela espera. Enquanto isso, suspira olhando a moldura alaranjada do céu. A solidão não é um peso insuportável. Percebe quando ele surge três quadras acima de sua rua e ri baixinho, nervosa, antecipando a emoção do momento em que estarão próximos um do outro. Aproveita o tempo para imaginar que ele, de maneira inesperada, vai puxar sua mão e levá-la pra longe dessa cidade onde os ossos e as ilusões murcham muito antes do tempo.

Maria Salete sente o coração acelerar quando ele para na frente de sua casa e lhe estende as cartas. Boa tarde, dona Maria Salete, ele diz e ela quase desmaia. Vai até o portão e pega a correspondência das mãos dele. Os dedos se tocam, e por um instante os anos se suicidam e ela volta a se sentir jovem quando diz Obrigada, Pedro! com a voz embargada. O Não por isso que ele devolve tem o oxigênio suficiente para que Maria Salete possa respirar e viver um dia mais, um dia menos.

 




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20 de novembro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos oxigênio, pôr do sol, solidão

               
              
            
                

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