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14 de dezembro de 2018

Pai

Os pais adotivos do adolescente por fim cederam ao pedido do filho e decidiram levá-lo para conhecer seu pai biológico. Deram-lhe boa educação e uma infância feliz, jamais lhe ocultando que não eram seus pais verdadeiros. O garoto os adorava, mas queria se encontrar pelo menos uma vez com o homem que o tinha posto no mundo. Pegaram a estrada num domingo de manhã bem cedo rumo às montanhas. No banco de trás, o jovem contempla a paisagem nunca antes vista por ele, acostumado só com a vida na cidade. Àquela hora da manhã a vegetação ainda estava branca, coberta de orvalho. Fazia muito frio.

Depois de uma estrada esburacada morro acima, o carro para diante de uma cabana de madeira. Os pais adotivos acompanham o adolescente até a porta, mas deixam que ele entre sozinho. E o encontro acontece. Um enorme cômodo vazio e um gato gigante sentado perto da lareira em fogo baixo é o que o garoto vê. Um gato grande como um urso, que recebe o jovem com um sorriso que pretende ser terno, os lábios perdidos no centro de uma barba já ficando grisalha. O pai e o filho se olham. O ar de repente deixa de existir, a respiração dos dois também. O cômodo é aconchegante e está aquecido, o frio ficou lá fora. Pai e filho estão sozinhos ali, numa cabana de madeira, quase no topo de uma montanha gelada, coberta de orvalho e mergulhada num silêncio respeitoso. O silêncio sagrado de uma oração.

 




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14 de dezembro de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos encontro, filho, pai, silêncio

               
              
            
                

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