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14 de novembro de 2016

A palavra que explode na boca

jorro4

Luísa é uma mulher especial. Um dia veio até minha casa e, sentada no sofá, me observou durante horas enquanto eu trabalhava. Não disse palavra e foi embora assim que o relógio da sala marcou dez da noite e… bom, isso não tem importância agora. O que eu queria dizer mesmo é que o Jurandir, amigo do Reginaldo, é uma pessoa algo esquisita, e não somente pela mania estúpida de ficar olhando o céu, estivesse onde fosse. Ele sempre tem um comentário cretino para fazer sobre o tom de azul, mesmo que lá em cima esteja cinza. E tem mais: às vezes, quando saímos em turma para passear, ele assovia abomináveis canções sertanejas, olha o céu, comenta que naquela manhã o azul está celeste perolizado e coça a calva luzidia com o dedo indicador; depois volta a assoviar canções sertanejas abomináveis. Também faz outras coisas estranhas mas, como eu ia dizendo, Dália era muito bonita. Todos os homens queriam se casar com ela e lhe mandavam flores. No inverno, quando não havia flores nas redondezas, os pretendentes a marido viajavam para lugares mais quentes só para colher rosas e cravos e camélias e margaridas frescas e assim manter o ritual de mandar buquês diários à bela Dália. É o que se conhece hoje em dia por Marcha Florida até Dália, uma fila de homens apaixonados pela mesma mulher, que não está apaixonada por nenhum deles e nem sonha em se casar. O curioso dessa história é que a Ana Maria, que detestava o Alex, se encantou por ele de uma hora para a outra e os dois decidiram viver juntos mesmo contra a vontade dos pais dela, que preferiam o Walter como genro. A lição que posso tirar disso tudo é que as cigarras cantam feito loucas nas noites de verão. Embora não as veja, sei que estão lá, no meio dos arbustos perto de minha casa, porque do meu quarto eu ouço o grito delas e a farra que fazem para mostrar que estão vivas. Sei também da existência das formigas, que devem estar também no mesmo lugar, executando o seu trabalho silencioso e ininterrupto. Umas não existiriam sem as outras, assim como não haveria Judas sem Jesus,

o Gordo sem o Magro,

o Bem sem o Mal,

Dulcinea sem Dom Quixote,

Bonnie sem Clyde,

Lênin sem Marx,

o preto sem o branco

e a delícia de viver sem a dor, a tragédia, o medo, o desencanto e o nojo desse mesmo viver.

Posso falar mais ou meu tempo já terminou?

 




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14 de novembro de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos boca, palavra, tempo

               
              
            
                

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