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30 de janeiro de 2020

Palavras em silêncio

Ele sabe e por isso se cala. Ela sabe e por isso fala. Ele bebe o seu café com creme e fica com um pouco de espuma no lábio superior. Ela se incomoda com isso, mas não diz nada. Ela não vai pronunciar a palavra “lábio”, porque lábio é uma palavra perigosa, suscita ideias, desejos. O silêncio a protege, ela imagina, assim como o ruído ao redor. Seu melhor aliado é o ruído. Muito ruído, como o da colherzinha contra a porcelana da xícara, o som ambiente da cafeteria ou a risada dos casais nas outras mesas. Um cliente abre a porta, o vento que entra esvoaça cabelos e desmancha penteados. Ela continua a falar, come um pouco de cabelo. Ele se aborrece, boceja. Que interesse pode ter uma conversa — cuja conclusão ele já intuiu — diante de uma xícara de café quase vazia não fosse por um gole, um só golinho? Ele bebe esse gole, o último, e deposita a xícara sobre o pires com um barulho maior do que o necessário. De alguma maneira ele tem que mostrar que está ali, ouvindo, embora não queira ouvir nada. Ela age de outra forma: resiste e bebe seu café devagar, mesmo sabendo que, dali a instantes, sua xícara ficará vazia e aí serão só os dois, sem café, sem barulhos artificiais, com as xícaras dormindo cada qual em seu pires e implorando por algum conteúdo. Agora ela está com a boca vazia. Outra dose de café? Os dois dizem não, cada um a seu tempo. Muito café provoca azia e insônia. Ambos estão com mancha de creme nos lábios e nem um nem outro avisa o outro sobre isso. A mancha não é pigmento, sairá com uma passada de mão ou de guardanapo ou de língua — “língua”, outra palavra perigosa, que não deve ser pronunciada naquela mesa. Vista de perto, a mancha é oca por dentro, é só espuma, embora tenha alguma profundidade. Num ato de legítima defesa, ela junta em sua mandíbula todas as palavras necessárias e as despeja no abismo. Palavras sólidas como pedras: trabalho, marido, relógio, tempo, filhos, religião, pai. O beijo sufocado no fundo dos dois alimenta o silêncio entre eles, e agora o barulho do ambiente ou a risada dos casais nas outras mesas incomodam mais. São só os dois agora, sem palavras, sem café, com creme esquecido no lábio. Dois pares de olhos estão fixos nas xícaras vazias. Dois fantasmas chamam o garçom e pedem a conta.

 




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  1. Vontade de perder as estribeiras!! Esbravejar toda indignação, berrar, socar a cara dele!! Esse silêncio parece anunciar o fim… Um caminho sem volta!! Ah!!!!! Que conto♥️

  2.     
                        
              
            
                

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