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4 de novembro de 2015

Para seguir adiante

olhando-o-marEspero que tu te lembres, pelo menos por um minuto, o que foste para mim… E o que fui para ti. E, ao te lembrares disso, me dediques um gesto, um olhar, mesmo que mudo, para que eu sinta que tu continuas comigo. Eu saberei entender, e isso me ajudará a seguir adiante.

Assim terminava a carta que Branca escreveu para seu amado Jardel. Colocou-a na bandeja, junto com o café da manhã que diariamente levava ao marido, na cama. Ao lado da carta depositou um selo que havia comprado há alguns dias. Sabia que ele adorava selos e tinha especial carinho pela coleção que construíra ao longo da vida.

Pôs a bandeja sobre as pernas de Jardel e sentou-se na poltrona, olhando-o. Esperou que ele começasse a comer. Ele não dizia uma só palavra. Com o olhar perdido mexeu lentamente o café com a colher, tomou um gole… Nada o tirava de seu mundo de ausências e silêncios.

Uma gota de café caiu no selo e Jardel soltou um “ah!” quase imperceptível. Branca aprumou-se na poltrona, com uma ponta de esperança. Ele vai falar, finalmente! Jardel limpou o selo na manga do pijama, olhou-o, limpou-o novamente e o colocou de volta na bandeja. Pegou a carta com ambas as mãos e, pela primeira vez depois de muito tempo, pareceu que lia com atenção. Seus olhos iam com diligência da esquerda para a direita, e Branca os seguia com apreensão e ansiedade.

Quando terminou a leitura, Jardel fechou os olhos, levou a carta aos lábios e a beijou. Levantou os olhos como um menino assustado, buscando os da mulher. Seus olhos estavam nublados, inundados de líquido. Fechou-os novamente e deixou que as lágrimas escorressem pelas bochechas. Estendeu a mão na direção dela e disse Eu me lembro e te amo! Te amo tanto… que me dói ter-te apenas por um instante. Ela foi até ele e o beijou como faziam no tempo de namorados.

Depois de meses de silêncio e ausência, Branca pôde desfrutar de alguns segundos de delicada lucidez e ternura com seu companheiro. O suficiente para seguir adiante.

 




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  1. Lindo texto! Sensível, encorajador e nos mostra um outro olhar sobre a relação humana. Fiquei tocada pela forma simples e inteligente de expor os sentimentos contidos.

    • Obrigado, Sandra. É uma situação bastante triste, que pode acontecer a qualquer momento com um de nossos entes queridos. Obrigado pela visita, volte sempre. Abraço.

  2.     
                        
              
            
                

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