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10 de maio de 2018

Parecer um

Acompanho com os olhos o voo da mosca que entrou pela fresta da janela. Me distraio assim às vezes, em outras me concentro em minhas mãos, os dez dedos, as dobras, a palma e o dorso. Olho-as em silêncio e as movimento sem muito controle, num ritmo que só eu tenho e sinto. É verdade que aqui não há muitas coisas com as quais eu possa me distrair, mas eu me contento com pouco.

As pessoas à minha volta gostam de mim e me dão comida quando me veem inquieto e com carinha de choro — o cardápio é variado: leite morno, chá, papinhas, doce de leite e purê. Também me dão banho, me penteiam, põem talco em todo o meu corpo e eu fico cheiroso. Trocam minha fralda sempre que me sujo e nunca se esquecem do creme contra as assaduras. Todos vivem em função de mim, o que posso querer mais?

Eu não faço praticamente nada além de comer, dormir, sujar a fralda, ouvir, olhar e me distrair com as moscas e com as minhas mãos bobas. Queria que os anos fossem meses, e estes, dias. Queria ter tempo para aprender a falar de novo, para além de minha língua desorientada e desobediente e de minha boca desdentada. Queria ser um bebê outra vez e não apenas parecer um, como eles dizem.

 




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10 de maio de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos bebê, mãos

              
            
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