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22 de abril de 2017

Pela maioria do povo

O candidato à Presidência da República daquele país apresentou hoje pela manhã, diante de milhares de olhos e ouvidos atentos, o seu programa de governo. Corria à boca pequena que esse ocupante do cargo era mais ativo que o anterior e não cometeria os equívocos que levaram seu antecessor a se tornar motivo de chacota e ao ostracismo. A população estava ansiosa para ouvi-lo.

A primeira medida que anunciou foi um plano para manter as ruas limpas e assépticas, livres de demonstrações exacerbadas de carinho — isto é, beijos apaixonados, carícias impróprias e cantadas de pedreiros nos andaimes das construções. Ele considerava que os lugares públicos eram frequentados por famílias de bem, que não precisavam testemunhar essas cenas indecentes.

Para proteger o mar e as praias do país, o candidato propôs endurecer as leis litorâneas,punindo exemplarmente a atividade de construir castelos de areia, sem distinção das mãos que os construíssem — fossem de crianças ou de adultos. A lei é para todos, decretou ele.

A outra medida, talvez a mais esperada por todos, apontou diretamente para a erradicação da corrupção. Assim sendo, foi decretado o fim da fabricação de envelopes. Todos os tipos de envelopes foram contemplados na proibição: com janela, pardos, americanos, de plástico, de ofício, pequenos, grandes, médios etc. Se não existir envelope, não haverá corrupção, ponderou ele em seu discurso. Os membros do partido torceram o nariz e advertiram o aspirante a mandatário supremo da nação sobre a possível revolta dos românticos que, mesmo sendo poucos, ainda existiam no país. Fiquem tranquilos, disse o candidato, triunfal, já ninguém escreve cartas de amor.

Foi eleito pela maioria do povo.

 




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