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28 de março de 2016

Pelas esquinas

perdidoSempre gostei de sair para caminhar. A esmo, sem destino, apenas pelo prazer de mexer as pernas, vencer esquinas, ruas e avenidas, chegar a algum lugar previamente determinado, e depois voltar, com a sensação de dever cumprido. Caminhar por caminhar, apenas. Respirar diferentes ares, contemplar horizontes, descansar os olhos nas paisagens à frente – é bom, reconfortante, revigorante. Gosto de cruzar com as pessoas que também saem pra caminhar assim como eu, à toa. Trocar cumprimentos com quem passa ao lado, acenar para quem está na outra calçada, enviar e receber sorrisos – tudo isso torna a vida mais suportável, quase alegre, quase um presente que se desembrulha aos poucos para reter, indefinidamente, o prazer da surpresa. Há poesia para o desfrute daquele que caminha.

Ontem, quando pus os pés na rua e iniciei minha jornada diária de desbravar praças, jardins e ladeiras, não cruzei com ninguém, e isso me causou estranheza. Só vi deserto à minha frente, lugares cheios de vazios e nenhuma pessoa a quem dizer bom dia. Fato raro, esse, que já dura mais de um dia. Também hoje não vi ninguém enquanto caminhava. O mais terrível, entretanto, é que escuto tudo perfeitamente. Ouço as pessoas falando, ouço a buzina dos carros, ouço homens trabalhando nas ruas, ouço o ir e vir apressado de todos, ouço a vida que segue em minha casa, ouço meus filhos chorando – ouço tudo, mas não vejo ninguém!

Ver um mundo deserto e escutar um mundo habitado é a pior de todas as torturas. Ninguém sabe o horror que é isso, a angústia que isso provoca, a menos que passe por situação semelhante. Os vivos costumam chamar isso de morte.

 




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28 de março de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos caminhar, esquinas, morte, vivos

              
            
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