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10 de maio de 2018

Pelos olhos de um cavalo

Subi até o Morro do Gavião e de lá olhei a cidade por inteiro. Não era uma cidade grande, mas era bela, e mais bela ainda vista de cima e em toda a sua extensão. Abraçar uma cidade inteira com o olhar não é pouca coisa, exige senso de contemplação e silêncio. Ao virar pro lado vi um cavalo sozinho, olhando quieto a paisagem estendida à sua frente. Estava imóvel, exceto pelo rabo e crina, que se movimentavam com o vento. Quando me aproximei dele, vi que era cego. Eu matutei um instante: ali estava um cavalo cego olhando uma cidade do alto de um morro; não era pouca coisa, era um acontecimento!

Perguntei a ele o que fazia ali, sozinho, sem sela nem monteiro. Ele respondeu, na linguagem dos cavalos, que sempre quis ver a cidade de cima, por inteiro, mas seu dono nunca permitiu; precisava puxar carroça, função para a qual tinha nascido. Só houve uma maneira de se libertar dessa sina: tornando-se imprestável, inútil. “Fiquei cego. Cego não vê por onde anda e, se não vê, não pode puxar carroça nem fazer outra coisa. Cego não presta pra nada. Foi assim que ganhei minha liberdade”, completou ele.

— Mas, cego desse jeito, você não consegue enxergar a cidade lá embaixo — retruquei.

— Não tem importância. Eu posso imaginar — o cavalo encerrou a conversa.

 




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10 de maio de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos cavalo, cego, cidade, imaginação

               
              
            
                

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