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6 de outubro de 2015

Pequenos mundos

pequenos mundosSão seis da tarde e a noite sepulta lentamente o dia e traz o frio. A rua, de pedra como a parede das casas, mimetiza o cinza, e agora está lisa e úmida pela garoa. Os faróis dos carros criam sombras que agigantam os edifícios e amedrontam. O ruído dos passos apressados das pessoas nas calçadas é música que não se deseja escutar: depois dela o silêncio vai ensurdecer aqueles que ficarão por ali, sem ter para onde ir.

Às seis da tarde caminho distraído e vejo uma silhueta contra a parede. Numa das mãos, uma porção de fios em cuja extremidade flutuam os balões coloridos em forma de bichos. Detenho os olhos naquelas mãos: apertadas, a pele escura, tremem com o frio que já desceu à calçada. Meu olhar segue para o braço, enfiado num abrigo fino, inútil como proteção contra o ar gelado. Alcanço o rosto e vejo estampados ali a fome e o sofrimento emoldurando dois olhos espantados e uma trança espessa e negra ombro abaixo. Encostada à parede, a mulher busca fugir da garoa e em vão tenta vender os balões aos transeuntes apressados.

As pessoas passam sem me olhar, os compromissos as chamam, são seis da tarde e ainda não é noite, tampouco é dia. Com esse frio e a ameaça de chuva, quem vai parar e comprar os meus balões? Se ao menos jogassem alguma moeda aqui ao meu lado, eu poderia tomar um café e esquentar a garganta. Esta cidade é uma merda. Nunca senti tanto frio e fome. E Calixto, como será que ele está? Será que arranjou trabalho lá no sul?

O relógio marcou seis horas, até que enfim! Estou cansado, e que calor é esse? Não é fácil ficar doze horas na plantação, colhendo laranja, debaixo do sol. Daqui a quinze dias vou ver Adelise, e quero ficar por lá. Se eu sobreviver, claro, porque na semana passada o ônibus que trazia as pessoas para o acampamento tombou na estrada e muita gente morreu. Acampamento fodido, é difícil pegar no sono aqui, com esse cheiro de mijo que embrulha o estômago. E também não se pode dormir amontoado desse jeito. E Adelise, como será que tem sobrevivido?

No sertão profundo ainda é dia com sol quente às seis da tarde. Sentada à porta da casa, a velha Madá aperta os olhos e contempla o horizonte. Ela nunca foi lá, no horizonte. Mas é lá que se encontra sua filha Adelise. E muito mais além, no sul, está seu genro Calixto. A velha Madá acende o cachimbo e se distrai com os netos que jogam bola no chão de terra batida. De vez em quando alteia os olhos para a estrada, mesmo sabendo que nada vem de lá. Pensa que podia aparecer o carteiro, trazendo notícias de Adelise e Calixto. Mas só o que vê é a poeira que os carros levantam ao passar. Por ali nunca chega ninguém.

 




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