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30 de setembro de 2020

Perdas

Ninguém nunca avisou

que a vida seria tão canalha.

 

Perde-se o pai

sem que chegue um aviso antes

pra poder se despedir

e abraçá-lo

como nunca foi feito em vida,

nem depois daquela noite, a primeira passada fora de casa,

dormindo ao relento sobre a pedra do monastério,

e encontrado por ele na manhã seguinte,

com alegria e os olhos rebentados de tanto chorar.

Nem nesse dia houve o abraço esperado.

 

Perde-se um amor,

um filho,

perde-se o melhor amigo, o emprego,

a roupa nova,

a comida, que queimou,

o tempo, a hora,

livros, poemas, discos, momentos, palavras, olhares,

o trem que acabou de partir

sem que tomássemos assento.

Restou um homem parado na plataforma

com o bilhete agora inútil na mão.

Trens que partem não regressam.

 

Eu te perdi,

tu foste o trem que não regressou.

O que ganhei em troca?

Talvez eu mesmo

e um punhado considerável de melancolia.

 




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