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3 de fevereiro de 2020

Permita-me, vida!

Escreva assim: que eu morri de velha. Parei com a caneta no ar, a pouca distância do papel cor de caramelo que tinha sobre as pernas e a olhei, esperando que ela mudasse de ideia e corrigisse a introdução da carta. Ela percebeu a minha hesitação e não se abalou: Isso mesmo. Diga que eu morri de velha.

Dona Amábile mexeu os pés pequenos para dar um leve impulso à cadeira de balanço de lona surrada, enquanto pensava nas palavras que ia ditar. Talvez assim eu consiga derreter aquele coração de mármore. Eu me apresso a escrever a frase, mas ela me interrompe: Não escreva isso! Paro a escrita e ficamos os dois em silêncio, ela, mirando o horizonte pela vidraça, eu, olhando a sala, as paredes descascadas e o chão gasto, esperando que ela desse seguimento ao ditado da carta.

Diga que tenho noventa e quatro anos, que estou com um pé na igreja e outro no cemitério e que meu coração ainda está com ele, mesmo à distância. Que já não enxergo quase nada, só sombras, coisas difusas sem contorno, cores espalhadas aqui e ali, nada muito nítido. Que tenho teias de aranha crescendo nos olhos. Diga que o tempo se encarregou de me fazer esquecer algumas coisas, muitas coisas, inclusive como é a cara dele. A cara dele, meu Deus, como é a cara dele? Deve ter mudado muito e, se o visse agora, não o reconheceria, mesmo se não estivesse cegueta como estou.

Faz uma larga pausa, enxuga os olhos úmidos com um lenço encardido. Suspira profundamente e ergue o braço em minha direção: Não escreva isso! Assoa o nariz no mesmo lenço. Tenho que resolver isso antes, preciso me lembrar de como era a cara dele e mandar palavras que prestem nessa carta. Eu sei que você logo vai embora e eu não terei quem me faça o favor de escrever outras linhas. Eu não consigo mais, por isso preciso que você faça para mim. Espere um pouco. Eu espero, olhando para o papel, para o chão e de vez em quando para ela.

Tinha os olhos claros, disso eu me lembro bem, como um céu sem nuvens. Como eram azuis! Naquele começo de noite de domingo ele chegou esbaforido, quase sem respirar. Tinha vinte e dois anos bem cumpridos e um sonho louco mal guardado: fugir do serviço militar e conhecer o mundo. Embarcaria naquela madrugada contra vento e maré, ninguém poderia segurá-lo. Implorei que ficasse. Não ficou. Prometeu escrever e mandou uma carta logo que pôs os pés na América do Norte, ou sei lá em que canto deste mundo ele estava. Depois nada, nenhuma linha. Tinha cabelo loiro, escorrido, a bochecha era vermelha. Assim era ele. Escreva que…

Eu estava atento, escrevia com rapidez, procurando não perder nenhuma palavra. Os dedos tortos e calejados de dona Amábile pontuavam seu relato, se contraíam, se apertavam. Buscavam no ar, aflitos, a expressão mais exata, a palavra mais definidora. Seus olhos miúdos não paravam quietos, querendo enxergar algo que já não conseguiam ver, que lhe escapavam como sombras desobedientes. Senti muita pena.

…que seu filho mais velho está deitado entre duas roseiras, uma branca e outra vermelha, e que eu, quando os joelhos ajudavam, ia lá todo mês limpar a lápide. Agora não vou mais, que não aguento. Diga também que o outro saiu de casa para ver o mundo. Como ele próprio fez um dia. Saiu para pescar e nunca mais voltou. Que os meninos perguntaram por ele e eu respondi: “Sei lá!” Tive que engolir uma bacia de lágrimas. E virei mulher sem marido, com crianças pedindo comida. Diga que a casa está quase caindo em cima de mim, a madeira apodreceu e tem goteira na sala e no quarto. Quando chove, empurro a cama para um canto ou durmo em pé. Diga que estou velha, a meio caminho da tumba, que não sou mais a mulher forte que cruzava o riacho carregando dois filhos até a escola. Que ele tem que me ver agora, vai encontrar uma ameixa seca com a cabeça quase careca.

Dona Amábile continua; sua língua, uma bailarina solitária num salão vazio: Diga isso mesmo. Escreva. Pergunte o que fiz para ganhar tanto esquecimento. Tenho minha consciência limpa, tive coragem para criar os dois meninos sozinha depois que ele, o desgraçado, sumiu. Perdi tudo, menos isso: minha dignidade de boa mãe, boa esposa. Eu soube esperar, quieta e sem dizer um ai, uma coisa que nunca voltou. Mas esperei. A sabedoria veio vindo devagar e depois que chegou, nunca me abandonou. A lucidez também. Mas a lucidez dilacera, não permita Deus que eu me dilacere.

Olho-a. Vejo no leito de seus olhos, entre as pestanas brancas, duas lágrimas se formando. Não escreva isso!, ela diz de repente, os dedos em minha direção. Só diga que ultimamente andei sonhando com o pai dele. Soprava o vento do norte, eu dormia e o sonho veio. Ouvi o barulho da chuva batendo no telhado e abri a janela e vi o pai, acocorado lá em cima. Vestia a velha calça vermelha e o paletó esgarçado de veludo marrom. Estava descalço e eu gritei “Desça daí, homem!”, e ele gritou de volta “Vim tomar banho de natureza”. Acordei gemendo, suando, sem saber se era sonho ou verdade tudo o que eu tinha visto e ouvido. Fiquei na cama até o dia dar as caras, esperando o pai dos meus filhos voltar, mesmo sabendo que ele nunca voltaria. Você e seu irmão cresceram sem pai, eu fui pai para você e seu irmão. Virou o rosto para um lado e olhou na direção do ocenao. Disse baixinho, como para si: Aqui tudo chega pelo mar, e pelo mar se vai. Quero diferente. Permita-me, vida!

Voltou os olhos em minha direção e, incisiva, continuou seu inventário de abandonos, oscilando entre as lembranças do marido e do filho: Diga que, se ele crê em Deus, por favor, venha me ver, mesmo que eu não seja ninguém especial, só a sua mãe. Que venha me ver antes do meu fim. Que eu fiquei muito sozinha, muito velha nesse mundo povoado de sombras. Já não me lembro de quase nada, às vezes passo a noite inteira buscando uma caixinha de fósforos para acender a lamparina, tropeço nas cadeiras, derrubo coisas, e me canso, então deito um pouco e só aí descubro que a caixinha estava na palma da minha mão. Também estou perdendo a memória, confundo nomes com datas, números com lugares. Diga que…

Paro de anotar e espero. Não tenho coragem de olhar diretamente para dona Amábile nesse momento, mas percebo sua aflição, as mãos no ar, os dedos querendo alcançar o inalcançável.

…esta noite seu pai vai voltar para casa.

Interrompo novamente a escrita e vejo que dona Amábile fecha os olhos e entra naquele estado entre o sono e a vigília. De olhos fechados ela continua a ditar: Seu pai vai voltar da pescaria e trazer os peixes numa cesta, vai chegar empapado de mar e de lua e vamos comer todos juntos. Escreva isso. Pergunte a ele por que ainda não veio me ver, diga que eu e seu pai queremos muito ver seu rosto, suas mãos, seu sorriso. Diga que o padre da igreja pergunta por ele, se está estudando, se mantém os sapatos sempre engraxados. Diga isso ao meu filho, diga.

Toco seu ombro de leve e aviso que terminei de escrever a carta. Dona Amábile abre os olhos e assente com a cabeça sem me olhar. Vejo que ela chora em silêncio, as mãos trêmulas sobre os braços da cadeira de balanço. Dobro a carta e a enfio no envelope pardo. Antes que eu pudesse fechá-lo, ela suspira: Ah, acho que me esqueci de alguma coisa. Escreva aí: diga que eu morri de velha. Sorrio. Não, a senhora não se esqueceu disso, digo com carinho. Com essa mesma frase começamos a carta. Mas ela já dormia pesado e não me ouviu.

 




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