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18 de janeiro de 2020

Pernas

Tu não ouves o silêncio ao redor porque dentro de ti ainda vibram todos os sons do acidente: a freada brusca, o golpe na beirada da ponte, o retumbar do veículo até a metade do despenhadeiro. E escutas o murmúrio que sai do rádio, uma música que tu não consegues identificar, enquanto a luz cada vez mais débil dos faróis faz brilhar o orvalho na vegetação rasteira. A noite andou e agora é madrugada, tu sabes, tu sentes. Há também outros brilhos que mal percebes, e desde o lugar em que teu corpo está, metade para fora do carro, a outra metade, as pernas, no meio de ferros retorcidos, compreendes que esses outros brilhos vêm de um par de olhos que conheces bem. Mírian!, sussurras, cheio de terror, tentando levantar o corpo, mas não consegues livrar as pernas destes ferros. Então tu os vês. São homens de uniforme, homens grandes, com tiras fosforescentes no peito e nas costas. Parecem gigantes, e tu tão pequeno, tão sem forças, tão sem pernas, tão inútil! Não te preocupes com ela, diz com a voz calma o mais alto de todos, és tu quem deve vir conosco. Ela ainda não. Ela está viva.

 




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18 de janeiro de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos brilho, pernas, silêncio

               
              
            
                

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