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19 de abril de 2017

Personagens à espera do escritor

As ideias fervem em sua cabeça e não o deixam dormir. Nem comer, nem descansar, nem gastar um tempo pensando em nada. Escreve compulsivamente, tentando dar passagem a todos os personagens que superlotam seu cérebro. Mas as mãos são mais lentas que seu pensamento e raramente acompanham a velocidade com que sua cabeça inventa histórias, enredos, tramas. Assim, é inevitável que se misturem florestas e cidades, personagens históricos e contemporâneos, artistas de circo e compositores clássicos, crianças gordas com executivos de cabelo gomalinado. Ao menos tenham compaixão de mim e saiam  um de cada vez, pelo amor de Deus!, grita ele, desesperado, as mãos sobre a cabeça. Então uma calmaria repentinamente desce sobre sua mesa e todos — o faquir, a bailarina manca, o lenhador, o padre pedófilo, a adolescente grávida, o palhaço triste, o travesti sem peruca, a velha que arrasta as pantufas — formam uma curiosa fila em volta do escritor e o olham, impacientes. Em silêncio, esperam instruções e o sopro de vida. Querem existir.

 




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