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20 de julho de 2017

Pés de barro

Abelardo tem uma mania e um propósito na vida: procurar ídolos aonde quer que vá. Fareja-os, identifica-os, localiza-os. Quando finalmente se vê diante de um deles, Abelardo se ajoelha para adorá-lo. Baixa a cabeça, fecha os olhos e experimenta intensamente a sensação de estar diante do ser tão procurado e desejado. Beija suas mãos, coloca-o num altar, cobre-lhe de olhares adocicados, acende incenso, conclama multidões para acompanhá-lo em sua adoração incondicional, grita loas ao objeto de sua veneração. E, enquanto exerce humildemente sua função de adorador, em determinado momento de sua contemplação subserviente, descobre os defeitos daquele ser a quem tão apaixonadamente admirava. Percebe falhas de toda ordem e matiz, desde o caráter até a maneira como abre a boca para emitir as palavras, desde a estupidez com que trata os semelhantes à sordidez de suas atitudes cotidianas. Observa o vazio do discurso, as mentiras, o desdém, a arrogância, o desprezo que o ídolo destina a tudo que não seja ele próprio ou o seu entorno. Então, decepcionado, Abelardo desiste desse ídolo fajuto e enganador e parte em busca de um novo. Outro dia foi visto perambulando pelas ruas, ainda à procura de ídolos. Estava cansado, amargurado e muito, muito triste.

 




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