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16 de outubro de 2015

Pessoa

pessoaE porque viver não é necessário – necessário é criar –, ele dizia para si mesmo nas horas longas em que, de sua janela, à noite, olhava o mar: Ah, Pessoa, tu tens uma espécie de dever de sonhar sempre, pois, não sendo mais, nem querendo ser mais, que um espectador de ti mesmo, tens que assistir ao melhor espetáculo que puderes. Acaso não tens em ti todos os sonhos do mundo? Então sonha, homem, sonha…

Quando se sentia só, nas noites em que apenas os passos miúdos e rápidos de Maria Jesuína, a empregada, indo e vindo pela casa, eram ouvidos, Pessoa convocava seus amigos mais chegados, aqueles imprescindíveis, para uma festa despretensiosa na sua biblioteca: celebrar a literatura com doses generosas do melhor vinho português.

Álvaro, Alberto, Bernardo e Ricardo se revezavam na criação da poesia mais sublime; Pessoa os olhava, recostado no sofá, sorvendo lentamente sua taça de Porto. Estava embevecido ouvindo-os falar, contabilizando mentalmente quantos e quão belos versos iria roubar deles naquela noite.

A festa avançava madrugada adentro e só foi interrompida quando Maria Jesuína, mãos na cintura e bigodes em riste, decretou:

– Pessoa, ainda acordado? Já pra cama!

Despediu-se dos amigos e deu boa noite a Maria Jesuína. No quarto, pijama de flanela, ouviu o vento que passava além. Olhou seus botões e pensou: Só de ouvir o vento, vale a pena ter nascido. Sentou-se por um momento nos pés da cama, os olhos nos chinelos: Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Pensou nos amigos com carinho e sorriu: São todos fingidores; fingem tão completamente, que chegam a fingir que é dor a dor que deveras sentem. Gostava de tê-los sempre por perto, ainda que fugazmente, porque o valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.

Deitou ainda uma vez os olhos no mar, além de sua janela. Ver aquela imensidão líquida e salgada apertou-lhe o coração e turvou-lhe a alma: Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal?

Dormiu, finalmente.

 




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