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20 de março de 2017

Piro

Como tantas vezes tinha feito quando criança, Piro se perdeu na praia. Caminhou sobre o olho d’água e tudo parecia igual. Sentia arrepios a cada vez que uma onda, àquela altura pequenina e sem força, molhava seus pés descalços. Na época de menino, ouvia os gritos de sua mãe vindos de longe mas ele seguia em frente, brincava com os cachorros que ali perambulavam, conhecia gente desconhecida, às vezes arriscava um mergulho numa parte mais funda da água e, ao anoitecer, aparecia em casa para comer, queimado de sol, cansado, recebia em silêncio os ralhos da mãe e ia dormir. Hoje foi distinto: estava algo angustiado, os olhos molhados, a boca trêmula, o coração apertado, porque buscava mas não sabia a quem,

porque o mar é grande demais,

porque a praia não termina nunca,

porque se passaram mais de setenta anos

e porque já não se lembra nem do próprio nome.

 




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20 de março de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos mar, nome, perdido, Piro, praia

               
              
            
                

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