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12 de junho de 2017

Poderia ser pior

Tenho que entregar os pontos e admitir que, ultimamente, está sendo cada vez mais difícil encontrar as chaves de minha casa. Estão sempre enredadas num emaranhado de moedas, canetas, caixas de chicletes, telefone celular, camisinhas, lenços, canivete, protetor solar, cortador de unha, cartelas de comprimidos, escova de dentes, documentos e carnês de contas a pagar — esses são os habitantes perenes dos bolsos de minhas calças, por pequenos que pareçam ser esses rasgos laterais da indumentária masculina. Sempre carrego muitas coisas neles quando saio para a rua, porque nesta cidade há sempre uma surpresa a cada esquina e nunca se sabe o que será necessário quando se atravessa um beco ou se cruza uma avenida movimentada. Mas nunca imaginei que o gesto simples de procurar chaves para abrir uma porta pudesse se transformar num ato sôfrego e quase desalentador. Até hoje.

Ocorreu há mais ou menos uma hora, quando voltei do trabalho. Minha mão direita mergulhou nas profundezas de um dos bolsos, impaciente, nervosa, procurando as chaves no meio daquele mar de (in)utilidades. Na descida ao abismo, meus dedos foram tateando formas e texturas diversas, arestas, pontas, bicos, superfícies arredondadas, relevos vários, mas não houve meio de sentir, com o alívio correspondente, as hastes de metal com as ranhuras que as chaves normalmente têm. Empreendi a mesma viagem no bolso esquerdo, usando dessa vez a mão esquerda, e com o mesmo insucesso.

Durante todo o trajeto descendente de minhas mãos no precipício escuro dos bolsos das calças, eu me perguntava onde estariam elas, as chaves, se eu tinha certeza de tê-las enfiado ali assim que tranquei a porta e saí para trabalhar. Não deviam estar longe. Não podiam estar longe.

Tanto esforço para nada. Não encontrei o que procurava. Olhei os degraus na entrada da casa e me sentei lá. Por fora, apalpava os dois bolsos, será que não havia uma chance de meus dedos sentirem as hastes pontiagudas das chaves? Não havia. Mirei com o canto dos olhos cada um dos bolsos, à direita e à esquerda, pensando no universo desconhecido que eles encerravam e rezando para que algum membro da família se dignasse a voltar para casa o mais rápido possível e finalmente abrisse a porta.

Pensei também: Vá lá, poderia ser pior — eu poderia morar sozinho.

 




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12 de junho de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos bolso, chaves, direita, esquerda

               
              
            
                

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