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28 de fevereiro de 2019

Poemeus

A LAVADEIRA

Vi a lavadeira na beira do rio

seus dedos calejados

sua espinha arqueada

suas pernas abertas

seu olhar concentrado

o sol a pino na cabeça

 

A lavadeira me viu

E me disse

apontando a roupa, o sabão, o rio

isso é só outra maneira de ver as coisas

mais limpas, mais puras, sem manchas

porque a água passa por elas

mas a água não passa sempre

 

A lavadeira continuou seu mister

e o sol pouquinho a pouquinho

foi se acabando, devagarinho

 

 

NINGUÉM CHOROU

Abreviei sua caminhada noturna

sorrateira

com a sola do meu sapato.

Deixei órfãos o assoalho

os cantos escuros

os dentros dos armários

 

Amanheceu sem que outras baratas

viessem chorar por aquela que assassinei

 

Estamos igualmente sozinhos na cozinha

eu e a morta

 

 

NÓS

No outro lado da rua

parada

como às vezes o tempo para

estavas tão linda aquele dia!

Nós dois éramos tão felizes

sem mim!

 

 

MOVIMENTOS COORDENADOS E REPETITIVOS

Da nuvem sai uma mão

da mão, um dólar

do dólar, uma cachaça

da cachaça, dois olhos vermelhos

dos dois olhos vermelhos, a raiva

da raiva, a língua virulenta

da língua virulenta, um impropério

do impropério, a valentia

da valentia, uma pistola

da pistola, um tiro

do tiro, um morto

 

do morto, uma alma

que ganha sopro, vibra no ar, sobe até virar nuvem.

 

 

NÃO ERA POETA

Ele dizia que não

não era poeta

não sabia nem o que era

poesia

mas quando contemplou pela primeira vez o mar

— a primeira e única vez que viu o mar —

ficou muito sério

muito calado

até que disse

bendito seja Deus por ter me dado olhos

 




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28 de fevereiro de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Poesia barata, lavadeira, mar, nós, poesia, poeta, rio

               
              
            
                

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