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14 de fevereiro de 2017

Por quê?

A pergunta que se fazem, em muda e angustiante troca de olhares, é por que demônios seu dono os tinha abandonado nesse inóspito lugar. Não encontram a resposta. Olham para cima buscando algum som, uma voz, pequena que fosse, que lhes mostrasse a razão de estarem ali, sozinhos, largados à própria sorte, mas nenhum retorno vem de lá. Percebem, por instinto de sobrevivência, que têm que fazer algo para conseguirem alimento e abrigo. Andam a esmo, percorrendo o caminho que seus olhos e os demais sentidos lhes indicam. Logo são surpreendidos com a descida da noite, sem que tivessem chegado a qualquer lugar. Intuem o frio e a fome na pele crestada e no estômago oco e barulhento. Sabem que será assim por muitos dias e não há contra quem se rebelar. Sentem o medo rondando e a ele respondem apertando o corpo trêmulo. Olham para cima mais uma vez; de lá só vem o silêncio. Quando estiverem ainda mais desesperados, as doenças os encontrarão frágeis e entregues, e só à custa de muito sacrifício conseguirão um pouco de paz. Conviverão com a discórdia, a raiva, a angústia, o arrependimento, mas persistirão nesse caminho que não é caminho — antes uma fenda, um buraco que se oferece à exploração de um todo desconhecido. Não sabem aonde chegarão, mas avançam.

Os anos passarão e eles terão filhos, netos, e netos de seus netos. Lograrão, com o tempo, ser em número muito maior do que são agora. Amarão este mundo, o qual aprenderam a conhecer com o suor do rosto e a força dos braços. Terão esquecido como chegaram até ele, mas nunca deixarão de arrastar os pés sobre a terra e a poeira. E também nunca, sem que saibam explicar o porquê, deixarão de olhar para cima e perguntar.

 




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14 de fevereiro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos pergunta, por que, resposta

               
              
            
                

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