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10 de fevereiro de 2015

Pouco mais que uma menina

africana

Assim pensa o homem de turbante e barba: ele fará o que deve ser feito, porque os antigos e as tradições ordenam e, acima de tudo e principalmente, está dito nas Escrituras. Por isso ele fará o que deve ser feito.

O homem de turbante e barba chega à porta do quarto e, antes de entrar, afia e limpa a lâmina e recita os versículos do Livro Sagrado, próprios para a ocasião. Abre a porta e a vê, à sua espera. É pouco mais que uma menina, em cujos olhos estão espelhados o medo e o desespero que lhe correm nas veias. Mesmo sabendo impossível, ela tenta se defender das mãos do homem de turbante e barba, maiores e mais fortes. Ele começa.

Depois dos gritos lancinantes de dor provocados pela ação da lâmina, faz-se silêncio no quarto. O homem de turbante e barba se retira depois de fazer o que devia ser feito. A menina está desfalecida no colchão pegado à parede, mas logo despertará por causa da hemorragia. Daqui a pouco virão as mulheres para cuidar dela e estancar o sangue. Sua mãe, se assim for permitido, irá tomá-la nos braços e talvez cantar uma canção para acalmá-la e fazer shhh para que ela aquiete o coração.

A partir desse dia a quase menina terá como amigas inseparáveis a depressão e a ansiedade. Não as lágrimas, porque as lágrimas já terão secado. Nunca mais, enquanto viver, ela sentirá qualquer coisa em seu órgão genital. Ela era pecadora. Seu pecado era ser mulher e africana. Logo tudo ficará bem. Shhh.

 

 

 




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10 de fevereiro de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos africana, lágrimas, menina

               
              
            
                

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