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16 de abril de 2018

A praça e os pombos

A praça continua cheia de gente. Gente intolerável, é claro. Mas os pombos mensageiros voam livres entre as casas ao redor, de varanda em varanda, de janela em janela. Aqueles que enchem o espaço público são diferentes entre si, gritam palavras de ordem distintas, pensam de maneira diversa uns dos outros — pelo menos é assim que contam, horrorizados, os camelôs e os pregadores que perambulam por lá. Ministros, governadores, membros de partidos e aspirantes ao trono máximo do país acusam-se mutuamente, culpam-se sem remorso, ignorantes do lado a que pertence toda essa gente, de onde vêm, o que pretendem, a que aspiram, o que sonham. No fundo, esses senhores também desejam ir à praça e provar, a quem queira ouvir e testemunhar, que eles também são diferentes dos demais, inclusive de si mesmos, mas não se atrevem. E ninguém — ninguém!, nem os que já estão na praça nem aqueles que desejam ir a ela — pensam em ser como os pombos mensageiros. Que estes voam livres para todos os cantos e não têm ídolos, santos a quem adorar, chefes ou patrões; apenas seguem sua intuição, de acordo com seu próprio pensamento e vontade. Aqueles, é no chão que viceja sua ambição rasteira e sem horizonte.

E a praça continua cheia de gente. Intolerável, é claro.

 




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16 de abril de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos detergente, pombos, praça

               
              
            
                

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