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21 de maio de 2018

A procissão das velhas invisíveis

À meia-noite as velhas saem à rua na direção da igreja pra rezar o rosário. Basta encostar o ouvido na porta do templo e lá estarão elas (faz anos que ninguém pisa lá, os ladrilhos estão trincados e empoeirados, os bancos quebrados e a sacristia sem uma só garrafa de vinho) declamando as orações. Depois saem em procissão pelas ruas do povoado, fazendo buracos na terra com suas bengalas e andadores, os vestidos molambentos arrastando-se pelo chão e deixando marcas na poeira. As vozes cantando ladainhas alcançam o céu. Dá pra ouvir o ruído das unhas raspando as contas e as cruzes do terço, os versos decorados das estações da Via Sacra e, inclusive, o praguejar raivoso de uma delas de que a colega lá na frente está acelerando a oração, será que quer terminar antes a função? E pra fazer o quê, essa bruxa velha que conversa com as árvores?

E nunca, nunca as vemos, como também nunca vemos a imagem do Senhor Morto que carregam nos ombros pelas ruas, até que seja afinal devolvida ao lugar original, aos pés do altar. Os gritos de “me arrebata, Jesus!” ecoam pela cidade e, no entanto, onde estão elas? Onde estão as velhas que rezam e rezam e se persignam, mas não se dão a conhecer? De que invisibilidade se vestem?

 




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