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22 de junho de 2019

Quando conto histórias

Mesmo sem ter nada a dizer, diga. Abra a boca, expulse as palavras, me diziam. Assim fiz. Não com a boca aberta e a garganta abrasada, mas com os dedos sobre um teclado oxidado e sob a luz estúpida de um fim de tarde alaranjado. Escrevi palavras a galope duma imaginação que me assaltava e fazia suar minha testa. E, sem deixar de escrevê-las, li-as e percebi, mortificado, que não significavam nada: um amontoado de palavras e frases que de nenhum lugar vinham e a nenhuma parte se dirigiam.

Não interrompi minha tarefa, porém. Insisti. Até que, como a inesperada fumaça atrás da qual os mágicos desaparecem depois de fazerem seus truques, soube o que dizer. E não soube só isso: soube também como dizer, a quem dizer e quando dizer.

Soube também que isso era perigoso. Então afastei meus dedos do teclado e olhei para fora. Um trem correu devagar pela estrada de ferro que há perto de casa. Um pássaro passou voando. Minha mãe gemeu no quarto ao lado. O mar arrebentou nas pedras lá embaixo. Uma criança chorou porque estava com fome. Um homem matou uma mulher na rua perto da praça. Roubaram dois carros no bairro vizinho. Um pai jogou fora sua filha pela janela. Uma menina foi estuprada e enterrada viva. Uma lagarta criou asas e virou borboleta.

Espantos. Espantos. Espantos.

A vida enfia as histórias pela porta da minha cabeça sem pedir permissão. E comigo permanecem.

 




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22 de junho de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos espantos, histórias, vida

               
              
            
                

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